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Des i - depois, em seguida

CULTURA | MUNDO | ENTREVISTAS | OPINIÃO

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CULTURA | MUNDO | ENTREVISTAS | OPINIÃO

Carlos Daniel Marinho | Amor

Parte 3 

O Carlos colaborou nas Jornadas de investigación “Pasado, presente y futuro de los estudios de juventud. 30 años de estudios de juventud en España”, em Valencia, em 2015; a apresentação e defesa de um poster científico no VIº. Seminário de Investigação em Psicologia da Universidade do Minho, e a publicação do artigo «Agora tu: Um instrumento lúdico para o desenvolvimento de competências sócio-emocionais» na Revista de Estudios e Investigación en Psicología y Educación [Vol. Extr., núm. 05 (2017)], para o XIV Congresso Internacional Galego-Português de Psicopedagogia [6, 7, 8 Setembro 2017 | Braga/Campus de Gualtar | Universidade do Minho].
Fez parte do movimento activista, enquanto co-coordenador e porta-voz da primeira marcha pelos direitos LGBT+ em Braga, e co-fundador do coletivo «Braga Fora do Armário».

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 ©Arquivo pessoal

 

 

Reabilitar VS Despreocupar?

Reabilitar. Humanidades. Tijolo a tijolo, e telha a telha, por sobre o talhe de planos alheios, à feição da planta mais íntima de cada um/a. Não acreditasse eu que tudo é reparável/que tudo é reparível, e por certo não teria feito de reabilitar humanidades um dos meus mais significativos métiers. Apercebo-me, como Saint-Hillaire constatou acerca do Organon, que também a humanidade em nós é como um desses monumentos arquitecturais ao qual se pode sempre acrescentar uma outra construção passível de desenvolver-se como um elemento indispensável para novas adições, mas que deve permanecer intocada para se manter um modelo de inspiração e um eterno regulador. Somando e subtraindo, reabilitar é então ser melhor. Face ao prazer de receber-me em casa, abrir-me ao mundo, e deixar entrar quem vier por bem, as despreocupações não são apanágio da minha vocação criativa: há que despertar, inquietar-se, irritar-se um bocadinho, há que arder, doer, perturbar, tem que tirar o sono, tem que tirar a cadeira e o tapete, tem que tombar ao chão. É ciência garantida: o ser humano anda melhor se rasgar alguns tendões. Há, por vezes, que bater no rés do fundo, sentir a nudez fria da planta dos pés descalços contra o chão sólido do mais baixo patamar a que podemos descer, para voltarmos à superfície, cônscios dos nossos limites. Deixar então sarar para sermos mais duros de casca, mais fortes de essência.

 

Nós VS Os Outros?

Os Outros. “There is an old joke about two english men who were cast away on a desert island for three years. It appears they never spoke to each other. Because they haven’t been introduced[1]. É exactamente a mesma febre das aparências. A ideia da nossa coexistência pressupõe que esta se desenvolva e realize no mundo, pelo que o próprio sentido existencial se torna dependente da chamada do Outro. Ponha-se pois que tudo é relação, que no princípio não é o eu, mas o Outro – um encontro anterior a toda a imemorial criação, não-violento por natureza, dois pólos equivalentes constituindo-se em perfeita reciprocidade, nenhum deles dependente ou submetido entre si. Pondere-se agora a patada de violência que os princípios racionalistas unívocos da filosofia ocidental desferiram sobre a alteridade; pondere-se bem o rombo que a antropologia dominada pelo ego perpetrou sobre a imprescindibilidade do Outro na formação do indivíduo. Não deixa de ser comitrágico como na sociedade supraindividualista que formamos, onde cada ação humana se vê mais e mais regida pela indiferença de todo um medonho sauf qui peut, que a mais transversal a todos os casos que atenda, e aquela que mais flagrantemente se revele – ainda que nem sempre por expressa declaração –, seja a necessidade de cada um/a ser amado/a, inteiramente ‘propium’, aos olhos do Outro. Com efeito, cada cliente que atenda é, em si mesmo/a, uma saudável declaração de dependência; as suas queixas são sempre queixas de fios relacionais ou demasiado apertados, ou demasiado lassos. E nós, vilipendiadores/as do nosso direito de primogenitura, curvamos, em vexado silêncio ao miserabilismo deste imenso segredo de Polichinelo, sem garra para virar o tabuleiro, sem espinha para afirmar o que queremos, sem tacões para defender o que precisamos; enquanto empurramos o Outro para fora da moldura, à medida que se instala um espírito de manipulação e instrumentalidade, e o relacionamento interpessoal vai sofrendo a perda do carácter direto e humano, somos também aquela ‘gente que miente por un trozo de calor, que reza por que pare el ascensor, atrapado contigo’. Não há nós se nos deslaçamos do Outro. O Outro é um dever – o Outro é um direito. E o mundo bem que é tão mais extenso do que uma ilha ou um simples elevador de pruridos tontos.

                                                                                                                           

 Amor VS Desenhar?

O Amor. Sempre. Do gemido à apóstrofe. Salvífico. Por toda uma grata lição de humildade que só conheci dessangrando à ponta das suas facas. O amor é esse catre duro, abençoado; é o sacramento que recebo recurvo, perpétuo amador num domínio de arte maior. Se é pela beleza que nos elevávamos da discórdia à harmonia, e tal como o ácido é anulado pelo alcali, também a feiura da desilusão é exterminada pelo seu oposto, pelo seu antídoto natural – a beleza, tenho que o coração não pode, por muito tempo, achar beleza na vida sem conhecê-lo, ao seu flogisto, à esporada de alento que nos alça para a transcendência, sem se dar a essa forma de participação mística, de unus mundus. Sem o amor, enervam-se-me o vigor nos esforços, a firmeza nas resoluções e o ardor no muito que ambicione. E como tendemos a realizar na vida o que retemos no coração, se o amor é – assim eu o serei. Ao longo da vida, ao longo do amor, fui percebendo que não há mais na vida do que amar; a seu tempo, compreendi igualmente que como sói passar-se noutras artes do humano, é preciso aprendê-lo. Nem sempre, e por circunstâncias múltiplas, nos capacitamos da importância de levar o coração à escola – doemos então de iliteracia. Hoje sei que o sofrimento tem cátedra, que a felicidade tem doutrina; não é verdade que não haja um manicómio para corações, como Espanca queria[2]. A despeito dos erros que se cometam, não há quem trave a obstinação do amor quando ele se sagra contacto com o numinoso. Não capitularei: quero-o a ele, incondicionalmente, venifluamente – nenhuma outra privação me saberá tanto a morte. Pese o muito que da sua natureza não saiba ainda, pese o tanto que do meu funcionamento não entenda, vou crescendo e mudando, como quem risca palimpsestos no seu caderninho de desenhos – ponto a ponto, linha a linha, até amar melhor. Essa é a essência da criação. E criar é tudo quanto sei de estar vivo.

 

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  ©Arquivo pessoal

Papel VS Computador?

Computador. É já uma das minhas mais recorrentes scies dizer que a vida se me faria muito mais simples se conseguisse concentrar esforços na dedicação a uma só atividade – ou, vamos, a uma atividade de cada vez –, não fosse ver nisso, por entre todo o inevitável acréscimo de responsabilidade e pressão, uma positiva forma de equilíbrio. A entrega, muitas vezes simultânea, aos meus dois principais ramos de atividade ocupacional – a psicologia clínica e a criação artística – implica um método e ética de trabalho suficientemente flexíveis para articular a lógica e objectividade do pensamento convergente, com a intuição e as operações mentais lógico-dedutivas do fluxo divergente. Gosto de trabalhar, e de trabalhar para a excelência do que faça; militante do ‘fazer acontecer’, objetivando o gozo das múltiplas concretizações, tenho-me por bastante work-oriented no meu dia-a-dia; não posso, porém, negligenciar as constantes solicitações do mundo exterior, e é também por meio do computador, e das redes sociais nele concentradas, que vou tentando o olímpico esforço de me manter em ponto de Arquimedes.

 

Silêncio VS Diálogo?

O diálogo. E as guliverianas viagens que ele permite. "Se as pessoas ousassem falar entre si sem reservas, haveria muito menos tristezas no mundo dentro de cem anos”. Na esteira da modernização social, porém, os conteúdos da formação cultural básica começam a ser transmitidos com uma carga afetiva diferente, deficitária, muitas vezes omissa por indisponibilidade de uns e outros – e quanto mais subtil é a expressão do afeto mais facilmente duvidamos dele; sem uma adesão emocional suficiente aos adultos significativos, o processo de aprendizagem das crianças e jovens vê-se perigosamente condicionado, senão mesmo impossibilitado. Um atento olhar analítico sobre os últimos cem anos de história societal mostrará a crescente diminuição do tempo real que os adultos passam com as crianças, a sua substituição por outras instituições ou pela exposição meios de comunicação. Paradoxalmente, nunca antes se assistiu à proliferação de tanto meio de comunicação com tão pouca comunicação efectiva entre as pessoas. Por onde anda, que lhe fizeram, que histórias conta a omissa ousadia de que fala Samuel Butler? "Precisamos tanto de conversar” como escreve David Mourão-Ferreira, uma das minhas principais influências literárias, “Precisávamos de fazer uma viagem de comboio, daquelas que se faziam antigamente, muito longas, em que se gastavam treze horas num percurso de trezentos quilómetros. Mas nem isso chegava... Precisávamos, sim, era de ir de comboio através de toda a Europa, de toda a Ásia, até Pequim ou Vladivostok".

 

Possível VS Impossível?

O Impossível. Pela invocação à transcendência, pela promessa de emancipação, pela ruga do cógito perplexo, pela pirraça da criança sonhadora, pela cegueira do homem ambicioso. Como Virgínia[3] contra a Morte, é contra ele que ergo “a minha lança e avanço com o cabelo atirado para trás” – o Impossível. Vivo do arrepio da surpresa, do súbito picar da agulha, desse ‘não haver o que o fizesse previsto’. Vivo de me querer trapézios para alturas maiores, além-mapas. Vivo de avançar como for, no simples e no superlativo, na olímpica braveza que as condicionantes do medo e do desânimo despertem em mim, até perceber a invisibilidade dos vitrais celestes, essa que por indeclarada lei ou fixo dispositivo me imponha à altura a limitação de uma alfândega (não é só até provocar o que temos por certo, que a sorte nos desvenda o constrangimento destas invisibilidades, desses ‘tetos de cristal’; não é só até chegarmos ao fundo da noite de todas as interrogativas, que mais nitidamente amanhecem os potenciais da nossa libertação). Lúcido e protestante: é assim que sou, é assim eu me quero. Para então erguer o queixo, esporear o cavalo, e irromper futuro adentro, rumo ao que Sancho perceba moinho e Quixote perceba gigante – ser mais, mais, mais, mais, mais.  

 

Obrigado, Carlos. 

 

 

[1] “Há uma velha piada acerca de dois ingleses que haviam naufragado numa ilha deserta, durante três anos, sem nunca terem faladoum com o outro – pois não haviam sido apresentados” (T.d.A.)

[2] “Pena é não haver um manicómio para corações, que para cabeças há muitos” [Florbela Espanca in ‘Correspondência (1912)’]

[3] Referência à obra ‘As Ondas’ de Virginia Woolf.

Carlos Daniel Marinho | Sentido

Parte 2

O Carlos foi assistente de encenação na Escola de Teatro e Dança de Braga foi relações-públicas do Grupo de Teatro Amador «Só Cenas». Em 2015 organiza a exposição «Suficiente Solidão», em parceria com Umur Güven, apresentada no espaço «Estúdio 22», em Braga. Apresentou «Nolens Volens», trabalho coreográfico que acompanha os diferentes estágios de desenvolvimento da relação amorosa, e a exposição «Pedra Papel Tesoura Beija-me».

Desde finais de 2017, é também o organizador do projeto «Encontro Criativo», consistindo em momentos de convívio informal destinados a artistas, amadores/as e/ou profissionais, connaisseurs e curiosos/as acerca do pensar e fazer artísticos, com o objetivo de proporcionar um espaço de diálogo, reflexão e partilha de opiniões sobre a criação artística; incentivar à apreciação e à criação artística, cativando e fortalecendo um público produtor no domínio criativo artístico.

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  ©Arquivo pessoal

 

Tradição VS Vícios? 

Tradição. Há que pensar que a casa do que somos, por força de várias gravidades, só conhece fundação quando erguida desde o solo, quando presa de raiz. À tradição, devemos-lhe esse primo contentor em que o imaginário social nos antegoza; esse que depois nos concretiza e, sangrentos, nos recebe em mãos parteiras. Pelo estatuto de elo acrescido à imemorial cadeia do tempo, longa vida à tradição. Mas como acompanhar o frenético timing das mudanças sócio-históricas não está para qualquer juventude, há pois que tombá-la sobre a marquesa médica, e atender-lhe qualquer queixa artrítica. É imprescindível que a tradição se actualize e afiance adequação às renovadas correntes da vida para que assim conserve os seus predicados de anfitriã primeira. Descoordenando-se do contínuo histórico, a sociedade cristaliza, adoenta e perece. Já os vícios são hélio para o que a tradição tenha de âncora. São sintomas dessa mesma descoordenação. Tanto mais gravosos quanto mais fundos os cortes lacerados. Mas tal como a sintomatologia do patológico é, muitas vezes, o que de mais saudável podemos exibir, também os vícios são alertas de despertador para o que haja “de podre na Dinamarca[1], são incitadores da ativação de recursos pessoais e comunitários para que se conserte a infelicidade. Pondo-se que ser feliz é ser-se em sintonia com os requisitos que nos individuam na multidão, é para este sentido de equilíbrio que cada dia rumam os meus esforços pessoais: escapar à fusão homogeneizante do coletivo sem perder a necessária coordenação com a sociedade. Os vícios traem a expressão das tradições estúpidas, das tradições sem nexo, das que se represam pela gravidade bolorenta dos dogmas em série, das que se mineralizam em silêncio atónito pela discreta imposição dos opressores, das que punem e mais fundo violentam a pluralidade humana. Quem me teria na conta de um anárquico timidamente insurreccional se não quisesse a estas tradições – às que mais enfurecem os não-apaziguadores, e lhes levanta os estandartes da oposição; quem me teria ativo se as não beijasse como Judas beijou Cristo, se as não tolerasse como às promessas boas de um caos parturiente, como aos silêncios bem pontuados, que nos resgatam a música à cacofonia? Em larga medida foi este espírito que me instigou à participação como co-organizador e porta-voz na primeira marcha pelos direitos LGBT+, em Braga, no ano de 2013; é este espírito que continua a instigar algum do meu trabalho artístico. Importa lembrar que o que não tem força de edificação, pode motivar forças de reação. É pois precisa a tradição velha, e estagnada, os vícios do seu legado poluído, a confusão demencial dos seus choques intergeracionais. São os sustos que ajuízam as gentes. É a preocupação com o vício da tradição caquética que nos enfuna as velas do progresso. E uma sociedade cresce, no dizer do provérbio grego, quando os homens mais velhos plantam árvores, sob cuja sombra sabem que nunca se sentarão.

 

Promessas VS Realismo?

Realismo. Sonhos que os preze, não me entendo senão como propagandista do ‘fazer acontecer’. A Verdade, contrária no sangue à natureza das promessas, não aceita essa intolerável suspensão de agência concretizadora. A Verdade quer-se – é-se – já, com toda a enérgica imediatez do presente que a manifeste: não há flair de procrastinação que a seduza, nem cómodos de laissez-passer que a embrandeçam. Por mais dura e áspera que chegue à carnadura humana, quando batida de frente, contra os bicudos cornos da sua inequivocabilidade, há na Verdade uma paz que nos organiza e nos serena, pois é dela constituir-se qualidade fundamental das próprias coisas, e impor-se afirmativamente por sobre qualquer temporária anestesia de ilusões. Nesta linha, compreende-se que o sofrimento não seja mais do que a resistência ao que ele próprio comporta. Conforme escrevo no meu livro «Y»: “Adormecemos com a primeira das mentiras, e assim que a risonha aurora nos vem beijar a fronte, os novos significados percebem-se como sólidos numa única versão substitutiva tomada por verdade – é assim (…) que nascem os mitos do coração. […] os atalhos são sempre mais demorados”. Depôr as presunções da ilusão, devolver a coroa à Verdade – sagrarmo-nos império de nós próprios, ajoelhando a essa rainha que tudo pode.

 

Segredos VS Ambições?

Segredos. Esfinge sem enigma que o queiram pensar, não há quem me enerve o fascínio sentido face ao mistério do ser-se humano. Quer percebido pela Arte, quer percebido pela Psicologia. De todos os quadrantes, por todas as inevitabilidades – no que tenham de mágico, de confuso, de inspirador, e de angustiante –, nada revela mais pitorescamente a nossa natureza do que o que mantemos, consciente ou inconscientemente, escondido. Foi na qualidade de psicólogo clínico, privilegiado agente às ordens da humanização do humano em nós, que ao ver o adoecimento da dor, me senti evocado a demonstrar uma simples aceção: a de que o sofrimento problemático resulta da violência que exercemos sobre nós próprios ao ignorarmos a chamada do dever – e todo o dever é aceitar a vida tal como ela nos chega. Mais do que a eliminação do sintoma patológico, o dever interior impele a uma demanda pela verdade, uma demanda pela individuação de cada pessoa, um levá-la à mais profunda sintonia consigo mesma. Ainda assim, tenho atestado quão mais fácil é para muitos/as permitir que a verdade seja fechada em dogmas, segredos e ‘não ditos’, do que aceitar-lhe as inerentes emoções negativas; tragicamente, é a resistência a essa mesma verdade que mantém e justifica a própria vulnerabilidade emocional. Muito ao gosto pós-moderno dos ideais do homem/mulher-máquina, o sofrimento da experiência problemática é subaproveitado como possibilidade de aperfeiçoamento pessoal, daí apreciar tanto a observação de Kierkegaard sobre a ansiedade ser um sinal da perfeição humana. Quer no meu trabalho como psicólogo clínico, quer nas minhas produções criativas de cunho artístico-pedagógico, é pela fissura entre o rosto e a máscara que mais ambiciosamente intervenho, delator de falsos ‘eus’, de ‘eus’ ideais, resgatando erros, falhas, insuficiências e percebidas incapacidades, às garras da presunção de omnipotência a que não raro o medo nos mantém atreitos.    

 

 Ironia VS Deus?

Deus. O arquetípico, bien entendu; não o teológico. Com efeito, o que interprete da religiosidade faço-o limitando fronteiras com a teologia. Não sou de anseios religiosos quanto à natureza ou aos atributos de Deus, como o são os de maior afinidade teológica. No limite, fascinado pela impenetrabilidade do mistério da existência, as minhas aflições e angústicas são todas elas puramente mágicas. Arquetipicamente falando, no dizer de Jung, "querendo ou não, Deus está presente". Basta como interioridade significativa. Recordo, a este propósito, como no ano de 2009, em correspondência com o Dr. Alfredo Dinis, director da Faculdade de Filosofia de Braga, me referi a Deus como a um outro nome para o nosso próprio. “Se tu investigares corretamente” respondeu ele citando Hipólito de Roma “[tu] O descobrirás, unidade e pluralidade, em ti mesmo (…), e saberás que Ele encontra a conexão como sendo tu mesmo". Ainda hoje, estas palavras compõem o discurso que mais se aproxima do meu entendimento sobre Deus; são elas que me sustêm o esforço de individuação face à consciência coletiva. Não há por que presumir desta perspetiva científica um qualquer insulto à espiritualidade; a espiritualidade sobrevive sem Deus teológico. Os meus comércios espirituais são transaccionados numa espontânea abertura para o ilimitado mágico da existência, para o transcendental. A ironia – entendida como discurso – é, nos dias de hoje, uma febre especial. Vivem-se tempos duros, rigidificados pelo pensamento operatório, pelo raciocínio concreto, orientado para o real, com interesse no atual e fatual, onde pouco se liga às emoções, não há ligação à atividade fantasmática – o pensamento está ligado à acção racionalista e pouco ou nada à transcendência, ao simbólico. Por seu turno, as extensas possibilidades da globalização revelam já todos os segredos da vida, sem respeitar idades nem sensibilidades, quebrando o fascínio do mistério, o encanto do tabu, a magia da incerteza, o que não raro se traduz em falta de motivação e tédio. Neste contexto, a ironia vejo-a como a mais uma das muitas scies do imenso desencanto, como a um suspiro emurchecido provocado pelo atual esvaziamento do simbólico, como a um gracejo giro mas efémero diante da angústia da finitude e do desconhecido, passivamente ressentindo a percebida ausência de moral e finalidade da existência – com Shakespeare “[it] struts and frets his hour upon the stage and then is heard no more”. Já Deus, arquetípico ou teológico, tenho-o por uma praxis do simbólico: do simbólico a cuja prática tanto precisamos dedicar atenção. Deus é coisa saudável – não creio que possamos dar-nos ao luxo de negligenciá-lo; a ironia, bem, a ironia é simplesmente chata.

 

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 ©Arquivo pessoal

Muro VS Memorial?

Memorial. Num mundo engripado de não haver solidariedade entre gerações, faz cá falta o xarope que nos aclare ao ouvido do corpo: ‘és a promessa ovular que o amor fez aos teus antecessores’. Um grito que acorde inteira a consciência da nossa raiz comum. É daí, este ancorar-me mais sólido às imprevisibilidades do presente – o ter-me aqui, e aqui mesmo, a contar toda a história deste tragicómico gerúndio de ir sendo, cada vez mais grato, cada vez mais feliz (também há mais rugas no processo). Porque ser contínuo é ser inteiro – e eu vim percorrendo campos e canais, dividindo mares negros, girando escadas e esquinas, saltando lajes sobre mortos: elo de cadeia a unir passado e futuro, juntando-me às crianças ainda por vir. E porque é de saudáveis ruturas esta estável continuidade, eu – eu de nome que orgulhosamente se declina plural –, quero um epitáfio novo, a punho próprio – garrido, vibrátil, altissonoro –, por cada Carlos que se reatualize e se substitua ao anterior; quero um sempiteterno minuto de silêncio por cada casca que tombe em vitoriosa excrescência de ecdise, e que por sobre as tarjas da minha mais recente versão seja encrostada, toda jóia, a rigidez de uma pele moderna. Quero logomaníacas missas que levem ao templo a persistência do meu existir, e que em longas romagens percorra o mundo a extensão da minha continuidade histórica, sem travões, sem apeadeiros, sem alfândegas, sem ruturas. O que me faça lembrado. O que me faça pertença. O que me faça ser.

 

Morte VS Vida?

Vida. [Só há vida]. Vida af. Suficientemente grata, amada em ato, como ato de amor, reconhecida no que traga em potência, no que mais inspire a multiplicação (que “se mais terra houvera, lá chegara”…). Vida que seja riso desgovernado, escândalo de beleza, como para Lineu o foi, em lágrimas, o tojo de Inglaterra; que seja cair de Alice à pipa cheia, amiga, fosfatada no seu negrume, que se perturbe e se desleixe no fascínio dos seus tautológicos mistérios, perfeita nesta agridoce assimetria entre o que se quer e o que se obtém, que siga a esfusiante excitação do mundo, que saiba primeiro desejar o que lhe é necessário para depois amar o que se deseja, que queira à morte, porque a “gente só nasce quando somos nós que temos as dores”. Este verso, da Natália, recito-o muito amiúde, quer em contexto clínico quer informal, quer nas preces do íntimo comércio com a minha própria compreensão. Há que querer-se o catre duro para se suprir a necessidade de repouso. Escrevo-o no «Y», obra que, à sua maneira, compreende um discreto estudo sobre a dúvida das bifurcações que surgem ao longo do caminho do crescimento, que se debruça fundamentalmente sobre a infinita capacidade de escolhemos renascer das tantas mortes que nos ocorrem, de escolher o poder de reescrevermos a nossa própria história, de nos conciliarmos com o passado e de nos relançarmos para o futuro. É preciso saber morrer bem, para se viver melhor.

 

Plenitude VS Omnipotência?

Plenitude. O eu não entende de metades, não substiste parcialmente: a dor é toda de quem se deita nas diferentes camas de Procusto da vida, e se estilhaça em recortes de amputação. Viver afeto ao medo de desagradar a outrem, à ânsia de agradar aos demais (mesmo que a expensas das próprias necessidades e desejos), interiorizar um ‘eu ideal’ num soberbo inchaço de omnipotência, reprimindo os seus instintos pessoais ou, em certos casos, desenvolvendo uma tendência desajustada para admirar exageradamente a sua própria imagem, não pode ter outro efeito senão o de debilitar o crescimento pessoal. Não infrequentemente, ao falharem o objetivo da perfeição, muitas pessoas acolhem sentimentos de culpa, frustração e vergonha, acreditando-se internamente defeituosas, más, indesejadas, inferiores ou inválidas, condicionando assim o estabelecimento de relações positivas que retroajam reforços construtivos. Tanto na clínica como na criação artística, tenho feito de delatar este tremendo segredo de Polichinelo social, e de rehumanizar o humano em nós, uma das minhas mais dedicadas paixões. Santo Agostinho defendia que só através da comunicação do indivíduo com Deus se faria possível o encontro dele com o Outro; prefiro a visão do contemporâneo Schillebeeckx, que defende que é através do Outro que se chega a Deus. A omnipotência e outros delírios humanos sobre a divindade são sempre perversões de excesso – só a plenitude, tomada como objetivo-guia (ainda que ideal) para a individuação de cada um/a, pode verdadeiramente aproximar-nos de uma mais reta verticalidade deífica. Talvez por isso tanto me digam as palavras de Marsilio Ficino quando, no século XIV, exclamou: «Conhece-te a ti mesma, ó estirpe divina em vestes humanas» – sem dúvida dariam um muito mais salubre e esclarecedor slogan do que toda esta dúbia constante campanha publicitária pró-humananoidice.  

 

Reabilitar VS Despreocupar?

 (...) 

 

Continua. 

 

[1] Hamlet.

Carlos Daniel Marinho | Casa

Parte 1 

O Carlos é Mestre em Psicologia Aplicada e pós-graduado em Psicologia da Família. O seu trabalho tem vindo a focar, essencialmente, perturbações de humor e ansiedade, comportamentos problemáticos do público infanto-juvenil, e dificuldades da parentalidade sadia, estando a desenvolver programas de promoção de competências sócioemocionais e de autovalorização para adolescentes, e a conduzir workshops e palestras sobre diferentes temáticas. Além do serviço privado, colabora ainda com o projeto «Animantes», em Braga, na co-dinamização de workshops lúdico-pedagógicos, arteterapia e artcoaching, com crianças, adolescentes, adultos e séniores...

 

Define-se também como criador artístico freelancer, investindo em diversos campos do domínio artístico sob o seu próprio labelling «Carlos Marinho – Criador Artístico». Ganhou o primeiro prémio no Concurso Literário Internacional «Mérida-Évora», representando Portugal, com a obra A Casa do Passado. Venceu o concurso literário «D. Sancho I», com a obra Chá de Bonecas, e o prémio no Concurso Literário Ovarense «Dar Voz à Poesia», com a obra Copas. Em 2015 publica o seu primeiro livro de contos Y. É autor do blog de viagens «Não Se Pode Morar Nos Olhos de Um Gato».

 

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 ©Arquivo pessoal

 

Perfecionismo  VS Casa?

Perfecionismo – uma e outra vez. Nos vários domínios da vida, se ao amor não o contarmos aqui, é esta ventania que melhor me põe a nado cada barco de evolução (talvez, penso eu, nenhum outro vício ou amorfa realidade quadre tão bem a quem gosta de se comprazer no superlativo). Pelo flirt da inquieta centrifugação, pela angústia persecutória que tanto me excita o sismógrafo cardíaco, pelo reforço intermitente de um desejo de chegada em perpétua abstinência de consumação – há nele toda uma pressa de roda em movimento que me incita ao passo exploratório, que me faz construir mais mundos, por dentro e por fora. O perfeccionismo é uma forma de compromisso com a excelência das minhas próprias percebidas capacidades. Acredito no poder de me realizar a vários níveis, acredito que esses vários níveis precisam de ser expressos e realizados até ao seu máximo potencial – fiz desta estrada uma casa muito minha: a que me vê chegar como work in progress, puxado pelas exigências do gerúndio de ir sendo, e que mais sossegado me vê prosseguir avante, no encalço de mais solicitações. Qualquer outra, no seu embotamento de estação terminal, é apenas uma triste afirmação bocejada, uma seta que passa o alvo e já só jaz no chão, sem graça e sem polémica. Essa casa adoece rápido num museu de silêncios findo o pico gritado do orgasmo bom; é a queda de véu do ‘não há mais’, o desfecho de livro onde morre o personagem principal, a intransponibilidade do the end. Enquanto o perfeccionismo é toda uma sugestão de iminência orgástica para a dinâmica constritiva de um edger: é essa luz verde, sempre mais além, nunca para se agarrar em mãos, que tanto nos espipa a ânsia leitora dos amores do Grande Gatsby. Nada animará mais o ritmo de um trotamundos do que trazê-lo ao fiel da balança, entre a intenção e o ato, suspenso na periclitância transitiva de um para o outro, expectante na vertigem de dobrar a curva para o fim. Há um gozo íntimo neste discreto suplício de Tântalo, um gozo em vê-lo deixar-me insaciado pelo constante recuo do fim: é dessa falta, que nasce o desejo. E é do ovo do desejo que se multiplica a vida toda.

 

‘Chá de Bonecas’ VS Suficiente Solidão’? 

‘Suficiente Solidão’. Percebida como processo, toda a criação se arrasta de pólo a pólo num altissonoro vagido de dor parturiente; segue-se que as delícias libertadoras do alívio se sobreponham à última contração expulsante, quando para nosso regaço tomamos, por fim, o produto criativo na sua versão derradeira. E o que é lei de vida é lei na arte: da penumbra do imaginário criador, amadurece e cai no mundo um algo de novo, objeto de luz, extraído do inexistente, que agora se soma à realidade maior para ser apreensível pelos demais. Na obediência a este movimento centrífugo, não só a criação valida a nossa pertença ao mundo, como retroage sobre a nossa subjetividade individual, reafirmando-a. Eis porque a criação é, inescapavelmente, um processo relacional – mesmo que não interativo, i.e., não objetivamente exposto ao olhar dos outros. Na minha experiência, há um sentido de missão que me transita do sonho para a dor, que me leva da dor ao alívio, e é de querê-la cumprida que recai sobre cada andamento do processo um febricitante feitiço de prazer. Ainda assim,expressões artísticas como a escrita de literatura ou poesia podem ser bastante solitárias. ‘Chá de Bonecas’, tal como o seu antecessor, ‘A Casa do Passado’, presta-se a exemplificar bem esta realidade. A despeito de me ter valido um primeiro prémio de concurso literário, e constituir um marco no percurso da minha afirmação pessoal como criador na área das letras, é hoje um artefacto menos excitante, obscurecido pela atualização da minha própria maturidade emocional. Na verdade, quanto mais acorro às solicitações do mundo externo, menos apelativo vejo o isolamento a que a criação me vota. Não surpreende assim que um dos meus mais gratos prazeres o encontre em partilhar as rédeas do processo criativo com outra pessoa. Tal foi a oportunidade de ‘Suficiente Solidão’, projeto de cruzamento entre vinhetas literárias da minha autoria, e homólogas ilustrações a punho de Umur Güven, sobre a superação do término de uma relação (o projeto foi exibido em exposição formal no dia 20 de agosto de 2016, no café-bar e galeria «Estúdio 22», em Braga). Além do gozo de trocar o silente monólogo da produção tipicamente eremítica pelo activo confronto dialógico entre ambos, de me sentir rumo ao encontro do outro, ser inspirado pelo outro, e derradeiramente encontrado pelo outro, o projeto permitiu-nos uma sadia evolução conjunta, em sintonia com a moral da história (pois na altura, éramos os dois vítimas de um coeur brisé), eternizando-se em história viva, para lá da categoria de mero happening, continuando ainda hoje nas constantes renovações da nossa amizade. Se no tempo do ‘Chá de Bonecas’ fruia de atrever uma forma de eternização contra a noção da minha própria finitude – com efeito, as únicas coisas que restam e lembram todas culturas anteriores à nossa são os seus escritos –, e a ânsia maior se constelava em torno do produto final, com  ‘Suficiente Solidão’ passei a recitar o famoso credo horaciano, a não querer da imortalidade jura alguma de boaventura, a deixar os caminhos da glória, da graça e da gravidade partirem audaciosos sem mim, preferindo antes do processo, o gosto da companhia humana que me faz os dias mais presentes. De preferência amesendados. A beber chá. 

 

Felicidade VS Beleza?

Beleza, sempre. Quando a felicidade é tantas vezes pervertida para os excessos da euforia, tão terrível, tão sinuosamente hipervalorizada pelo postiço das expectativas sociais, quando nada exclui aos seus bastidores um temperamento rude, áspero e insensível, digo com Wilde que “o suficiente é tão satisfatório como um grande banquete”, e prefiro-me a boa zufriedenheit da tranquilidade. Mas Stendhal tem a sua razão ao afirmar que a Beleza é uma promessa de felicidade. Suponho que me não tivesse sintonizado na frequência da continuidade histórica a que digo pertencer se a todo um sentido estético apurado por séculos de demorada evolução, me não tivesse educado a experiência do existir numa determinada lógica de elaboração emocional, tal como não teria abraçado esta estética se os rios da ancestralidade, a confluir no que trago de singular, me não tivessem predisposto as águas ao gosto de um certo toque salino (isto de ser Marinho tem que se lhe diga). A sugestão de Beleza impressiona-me como uma agradável légèreté de que se indistingue o exercício da minha própria respiração. Tenho vivido para a Beleza e pela Beleza das coisas – reconhecê-la e enfatizá-la no que vou percepcionando e experimentando, converti-o na paixão com que até agora tenho dourado a extensão das minhas horas. Na medida em que o meu esforço criativo se vaza nos moldes da encarnação da ideia através da forma em função da Beleza, a Beleza define-me como esteta. A atividade como esteta fez-me perceber que não há evolução pessoal sem o desenvolvimento de todos os canais, mecanismos e dinâmicas de expressão, que não existe vida sem criação e criação sem a possibilidade de transformação e reconstrução, e que sem estes elementos não há felicidade. Mais tarde, a Psicologia permitiu-me não só perceber-me dotado de todas as possibilidades para a minha auto-realização, e instrumentalizado internamente com todas as ferramentas necessárias para o desenvolvimento das minhas competências físicas, morais, pessoais, relacionais, sociais, intelectuais, interculturais, mas também ativá-las para ir actualizando uma versão cada vez melhor de mim mesmo.

 

Boca VS Olhos?

Boca. Os olhos são para as lonjuras castas da contemplação, para as passividades do platonismo, para os longos e maçudos enredos da idealização, para os velhos chorarem o intocável, para os jovens carpirem o impossuível. Os olhos pestanejam demais, arrastam-se demais, inconcluem-se demais, têm o vagar da ronda em círculos de um polícia preguiçoso. A boca é a embaixatriz original do comércio sensitivo. É um órgão assertivo, vai mais longe. Não só a que fala, mas a que beija – atirada das canelas, tem menos intermitências que o olhar. É a ninja das missões cardíacas. Os olhos abrem bifurcações, mas a boca fecha estradas, não cuida sinais confusos – é a do ‘é agora ou não é’, a seta ao alvo inteiro, o termómetro de genuinidades: não aceita pessoas pela metade, não curte digitalidades, não quer desejos reticentes. Há nela a certeza que securiza e que serena. É preciso boca – é urgente boca. Sobretudo num choque de carne celulada e gordurosa com a carne de outra boca, na sua pegajosidade mais salivar. Haja boca em socorro do instinto de terror que cresce face às paixões do corpo; boca contra a mordaça das abstinências e flagelações a que persistentemente o votamos. Os dias de hoje vêem-nos demasiado clivados entre espírito e matéria; estamos a perder a compreensão e experiência desta última como a algo sagrado, como algo a honrar e a fazer preito. É preciso boca. Boca para despenalizar o culto dos sentidos, elevá-los a uma nova espiritualidade. Por verbo que se diga ou osculação. Os olhos, já eu os fecho para não ver tanta garganta. A boca que não se cale. Boca, boca – trinta e três vezes boca.

  

Moral VS Abraços?

Abraços. Múltiplos. Torrentosos, em proporções de monção, para os que não haja guarda-chuva resistente. A todo o pano, em queda-livre, de malas e pé fincado, do alto à diagonal, até ao sufoco, até à xifopagia, até à fusão indestrinçável (da fusão sem confusão). Dos fortes, dos wrestlerianos, dos à la Godzila, dos das fábulas sem moral, dos que desalinham o make-up e despenteiam papelotes, dos que magoando um pouco os ossos se atiram, doidos, às portas da alma, que são trick and treat simultâneos. Abraços que se deixem entrar, nem sempre sem licença concedida, abraços party-crashers, de caroço e polpa cheia, abraços-medicina para a cura deste parvo higienismo sensitivo que a sociedade atual teima em disseminar no pavor de qualquer atentado ao seu eu logocêntrico. Pois hoje, tristeza, com o alargamento dos espaços de opção às esferas próprias do estilo de vida e da moral, o individualismo sagrou-se como valor dominante, fazendo-se largamente responsável por obscurecer a imprescindibilidade do Outro na criação e na manutenção de relações significativas. A minha exposição de arte plástica «Pedra Papel Tesoura Beija-me» ocupou-se deste tema. A morte do Outro adoeceu o afeto, fez-nos inaptos para o diálogo, deficitou-nos a socialização, estranhou-nos para o isolamento, deformou-nos a moral. Quando sincero, o afeto não sabe de alfândegas; quando real, não pode esmagá-lo nenhum carimbo de censura. Cheio, vigoroso, nada como um bom abraço para que prevaleça a voz do desejo por sobre a do dever. Sobretudo quando o dever, de tão contrário à orientação centrífuga do que é ser-se humano, nos teima em digitalizar as experiências de afeto. É pois preciso rematerializar o corpo, revincular o indivíduo ao grupo, tornar as relações interpessoais diretas e corpóreas, dar-lhes ‘xixa’ – ‘enxixá-las’. Fazer do mundo real a nova trend, o dernier cri. Só de pensar nisso… venham de lá esses ossos.

 

Perder VS Ganhar?

Ganhar. Estar em sintonia com o meu persistente desejo de auto-atualização, com o drive que me alça para diante. Desde longe trago a atenção em alta, a tendência para fremir pelas mais pequenas coisas, de me comover mais facilmente a propósito de qualquer minúcia, uma urgência analítica e insaciavelmente curiosa na operacionalidade das minhas faculdades cognitivas, uma necessidade premente de adquirir conhecimento, de ter a mente ininterruptamente ocupada, entretida a observar, a examinar, a perceber, a cruzar, a criar – um constante alerta de emergência, um querer ser muito, um querer ser tudo, e tudo ao mesmo tempo. Gosto de expansões, gosto de vida. E como verdadeiro hoarder de experiências, a grande batalha que travo é contra os desânimos do onismo, esse triste reconhecimento do muito pouco que conhecerei do tanto que há no mundo a conhecer-se. Suponho que tenha um bocadinho de Schopenhauer em mim ao defender que somos tanto mais quanto mais nos for dado a conhecer existir. Ganhar, claro. No que der, quanto puder. Ganhar tempo, ganhar tino, ganhar-me o pão, ganhar a horas, ganhar nome, ganhar raiz, ganhar coragem – ganhar! – ganhar simpatias, ganhar-lhe o beijo, ganhar confiança, ganhar-lhe a confiança, ganhar a partida, ganhar a dianteira, ganhar-me a própria palma. Ganhar!

 

Liberdade VS Escrever?

Liberdade. David Attenborough, o naturalista britânico, dizia que ao cantar a laringe humana revelava uma muito maior variedade de sons do que aquela exigida pelo simples ato de falar. A expressão literária representa, para mim, o mesmo uso otimal do que trago em potência. Mas humano que se veja proibido de (re)produzir-se em liberdade, a quem se lhe dissuada – passiva ou agressivamente – a necessidade de ampliação pessoal, é humano que de certo acabará deprimido nos engasgos de uma implosão. Hoje aceita-se comummente que uma das mais gravosas consequências da censura no pré 25 de abril tenha sido não o embargo das obras em si, mas o desânimo a que esse embargo acabaria por conduzir os/as seus/suas escritores/as. Não creio que haja evolução pessoal sem o desenvolvimento de todos os canais, mecanismos e dinâmicas de expressão, tal como não creio que exista vida sem criação e criação sem liberdade auto-atualizante. A censura, porém, persiste ainda: sinuosa, invisível, não-oficial, banalizada – em todas as práticas sociais que nos despromovem a consciência crítica, que nos desvalorizam a originalidade, que nos suprimem a autodeterminação. Uma educação que substitui os potenciais dos alunos pelo conformismo à coletividade, que incentiva a que o valor que nos atribuamos radique num parâmetro imposto desde o exterior, regulado por terceiros, não poderia ter outro efeito. Entendê-lo, no meu ponto de vista, reclama o uso de uma abordagem crítica por parte da epistemologia moderna, e um ativismo omnipresente em militância a favor da liberdade – sobretudo a liberdade rúbida e ruidosa, canhão à solta, numa chinfrineira de Carnaval rua afora, a desoras da decência, a bater tachos e tacões, arrastando garridas traînes de purpurina e de missangas, a que se edifique na celebração do que é honesto e coerente, a delatora de tóxicas invisibilidades, a que se sagre roteiro de humanização, que nos acorde a todos/as deste coma lúcido de passividade.

 

Tradição VS Vícios?

 

(...)

 

Continua...   

Pedro Crispim

É incontornável falar-se de moda e não se proferir o nome Pedro Crispim. Alentejano de gema, Pedro tem-se tornado, cada vez mais, um marco no mundo da moda.38791651_10156017556804775_3529187627989204992_n.j

Estudou Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa e, desde então, tem dedicado a sua vida à moda. Recentemente organizou o desfile “A Beleza não tem idade, na cidade”, projeto esse que mostrava aquilo mesmo que o nome indica.

 

 

Para além desse projeto, é mentor de tantos outros projetos onde dá tudo o que tem de si. É também o criador do Atelier Styling Project.

 

Lisboa Vs Vila Nova de Milfontes?

Vilanova, cada vez mais o meu Alentejo!


Pop Vs Fado?

Depende dos momentos e do mood.

 

Branco Vs Preto?

Preto, sempre e para sempre!

 

Alma Vs Gentes?

Alma, sou uma pessoa de almas, o que está por baixo das camadas é sempre mais interessante e real.

 

Chapéus Vs Malas?

Estou numa fase de malas, mas tenho uma coleção de chapéus que adoro.

 

Café Vs Bolos?

Bolos, e de preferência do de requeijão da minha mãe.

 

Fama Vs Reconhecimento?

Reconhecimento, o resto é só paisagem!

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Perder Vs Dar?

Dar, encontro um prazer gigante no dar, na partilha!

 

Fiel Vs Convencional?

Depende do tema, penso que é possível casar os dois prismas.

 

Sol Vs Quarto?

Sou uma pessoa de dia, de sol.

 

Amor Vs Paixão?

Tudo depende das fases da vida.

 

Pessoas Vs Solidão?

Sou de pessoas, mas cada vez mais o silêncio e a solidão opcional.

 

Interesseiros Vs Admiradores?

Amigos, e gente real!

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Reflexo Vs Céu?

Existe tempo para o profano e para o sagrado.

 

Glamour Vs Natural?

Depende da ocasião, mas com a idade aceitamos a nossa naturalidade.

 

Deus Vs Realidades?

E preciso acreditar, mas com os pés no chão.

 

Livros Vs Corações?

Livros com emoções e corações com história.

 

Arte Vs Comum?

O comum pode ser arte, aliás é na realidade que muitas vezes a arte se inspira.

 

Chanel Vs Dolce Gabbana?

Chanel sempre e para sempre.

 

Cristina Vs Goucha?

Gosto dos dois, quer a nível pessoal, quer profissional cada um com as suas características! São brilhantes e muito generoso.

 

Obrigado Pedro!

"Quero lhe mostrar como eu vejo"

Quando falamos de amor podem surgir-nos mil e uma imagem na nossa mente. Quando falamos de amor palpita-nos o coração, brilham-nos os olhos.

Mas como explicar o amor? Como dar a entender o amor a alguém que nunca amou? Ou como dar a entender a forma como vemos o mundo quando amamos? Há perguntas às quais não sabemos dar uma resposta ou não conseguimos encontrar uma forma de responder porque nos é difícil de explicar.

Mas, por vezes, precisamos colorir os nossos sentimentos, a forma como sentimos as coisas. Atribuir-lhes uma definição concreta, uma característica, uma cor.

“Quero lhe mostrar como eu vejo” é o primeiro livro de Amanda Jús. Uma pequena história de amor, onde o mundo é visto pelos olhos de alguém em quem se confia. Um livro onde abundam as cores, sentimentos feitos de arco-íris. Cada cor é uma forma de sentir. Cada cor é atribuída a um sentimento.

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Mas aqui não se trata tanto de falar das cores, mas como pequenas coisas podem fazer a diferença. O que sentimos por alguém pode tornar o nosso mundo completamente diferente e coisas banais, como a chuva ou o cheiro a comida, nos podem fazer sentir de maneira diferente.

Amanda faz-nos sentir em cada palavra que escreve. Transporta-nos para um mundo de cores mesmo quando não queremos ver. É a perspetiva de alguém que ama. E porque ama, sente, independentemente da diferença. E esta diferença está somente nos olhos de quem não quer ver, na cabeça de quem não sabe amar.

De uma forma muito simples, Amanda mostra-nos que o amor, mais uma vez, ultrapassa qualquer barreira, que o amor é confiar, é entrega, é doação.

Poderíamos viver de uma forma diferente, de uma forma que nem sabemos bem como, onde o amor não existisse. E se o amor não existisse, não seriamos pessoas, não seriamos gente. Talvez nem a humanidade existisse. É o amor que faz nascer vida, é o amor que gera, que move, que nos faz lutar em cada dia.

“Amar é conseguir descrever um arco-íris para alguém que nunca foi capaz de ver”

Amar, dar, sentir. Cada cor de um arco-íris que nos transporta para uma diferente forma de amar. As mãos dadas, os sorrisos, o mundo da forma como quem ama vê.

“Quero lhe mostrar como eu vejo” não é um livro para crianças, não é um livro para adultos ou adolescentes. “Quero lhe mostrar como eu vejo” é um livro para todas as idades, para todos os momentos, uma ode ao amor, uma forma de voltarmos a ver o amor de uma maneira diferente. É um livro de ler e reler, um livro onde se pode ir buscar forças para novos desafios. É um livro de amor, um arco-íris em folhas.

Parabéns à Amanda por este fantástico primeiro livro. Que daqui saiam outras grandes obras de amor e feitas com amor. Que o amor nunca seja barreira, mas cada vez mais ponte, cada vez mais mãos dadas.

 

Carlos Almeida, o poeta

Conheci o Carlos Almeida numa sessão de poesia. Reencontrei-o, mais tarde, na apresentação de um livro seu, no meu local de trabalho. Mais tarde as nossas vidas vieram a cruzar-se por outros motivos. Hoje temos uma amizade cultural. Foi das primeiras pessoas de quem se falou neste blogue.

Encontro Moita Mostra, arquivo pessoal do escritor

Convidei-o para participar no nosso "Versus" e disse-me logo que sim. Reconheço o seu trabalho, tanto a nível literário, como na pintura. É um amante das artes e faz delas a sua vida. É alfacinha de nascença, lafonense de criação, mas é em viseu que se sente aperfeiçoado.

 
Professor de História, acumula ainda a direção/animação cultural do Gicav, do qual foi também fundador. É ainda Diretor do Festival Internacional de Banda Desenhada de Viseu. Fundou, nos anos oitenta, a Associação ARCA em Santa Cruz da Trapa.
 
Possui obras artísticas em coleções particulares nacionais e internacionais e já expôs um pouco por todo o país. Possui várias obras literárias, desde obras infantis a antologias poéticas. 
 
Poesia Vs Pintura?
escrevo no papel com as cores da aventura e da emoção à flor da pele e com e com os sons da alma, e pinto no tela com os sons e as tonalidades dos versos que se amontoam e teimam em explodir de todas as formas sem restrições de fundo ameaçando os medos e partilhando sem limites porque assim penso que devemos viver... 
 
Histórias Vs Estórias?
enquanto Homem sou o conjunto de todas as minhas histórias e em relação com as histórias dos outros... e depois enquanto criador sou esse desafio a mim próprio colocado de também desafiar a alma dos outros leitores e ouvintes com as minhas estórias quem sabe à espera de um retorno que me inquiete e me preencha de outras estórias o lado mais negro que me atormenta...
 
Palavras Vs Ações?
no princípio era o verbo... e o verbo se fez poesia e só depois ação... assim também eu me revejo na escrita... os versos e as frases tornam-se quase sempre motores de busca para os projetos/ações em que persistentemente me envolvo ao encontro dos outros ... sou uma espécie de "passeur" , não me vejo a guardar para mim os textos e as ideias, estou imbuído de uma vontade ameaçadora e rebelde de libertar o que escrevo e produzo para chegar aos outros e poder ajudar a dar-lhes também um pouco das minhas viagens e dos meus gritos e das minhas dúvidas e dos meus prazeres...
 
Fazer Vs Desejar?
o desejo é por vezes tormentoso... o desejo do corpo sobrepõe-se muitas vezes ao desejo da alma... acredito que o desejo nos mova ao encontro do desconhecido também do sedutor embora nem sempre em frente... mas o desejo é o sopro da vida que nos leva a abraçar as asas dos ventos e procurar ver o mundo de cima para ajudar a sarar as feridas de um mundo que não é nem será jamais perfeito...
 
Viseu Vs Santa Cruz da Trapa?
em Sta Cruz da Trapa está a alma e a memória e os sabores maternos e as primeiras experiências do amor e da paixão e os aromas da terra e portanto o cofre onde quero guardar-me... em Viseu estão as encruzilhadas e o colorido das veredas por onde gosto de perder-me sem pressas mas também sem rodeios, onde desafio o tempo e o espaço dentro e fora da sala de aula, onde procuro abraçar a cidade sem me perder de paixão por ela, onde procuro ajudar a construir caminhos de liberdade e tolerância...
 

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 Oportunidade Vs Conquista?

pois cada oportunidade aproveitada já é uma conquista, depois da dúvida vem o projeto, e a realidade torna-se ventura e motivação... não sinto em mim qualquer veia de conquistador, antes a maravilhosa vontade de celebrar as conquistas comunitárias, as conquistas dos coletivos com os quais me envolvo, numa partilha salutar de sonhos e experiências... 
 
Mar Vs Campo?
no mar residem os monstros desconhecidos, ,os maiores temores, a profundidade dos abismos que não se distinguem, as emoções mais fortes, o derradeiro refúgio.... no campo encontro a natureza palpável, os sorrisos imediatos, os abraços confortáveis, o toque real da verdade mais próxima... entre um e o outro escondem-se algumas paixões e alguns mistérios...
 
Passado Vs Presente?
somos tudo isso... e eu não escapo à regra... eu sou eu porque os meus pais me fizeram assim... e depois sou o ar que respiro e os pratos que confecciono e os versos que escrevo e os quadros que pinto... e é assim esta dialética... não abomino o meu passado, antes pelo contrário, será sempre o pilar que sustenta o meu presente... 
 
Sorrisos Vs Gargalhadas?
gosto de levantar sorrisos... e receber gargalhadas... o sorriso é a maior expressão da compreensão do mundo e do nosso papel ... o sorriso é comunicação perfeita... a gargalhada é a exteriorização de uma ventania interior que pode levar ao contágio ... e por isso positiva...  
 
Terra Vs Céu?
os pés na terra... os olhos no céu... sim posso dizer que sim em sentido figurado... não me perco de olhos no céu...  perco-me de amores na terra... 
 
Ir Vs Ficar?
sempre ir e regressar, não gosto de ficar muito tempo nem obrigar os outros a ficar... dou tudo de mim para quem quiser aproveitar... esperando que também me acompanhem... não gosto dos que ficam à espera que caia do céu... ir e voltar é este movimento que me leva a escrever e pintar e fazer outras tantas coisas também... 

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Pimba Vs Rock?
o rock é como um orgasmo salutar (QUEEN, SUPERTRAMP, Scorpions,  Pink Floyd - e sou feliz neste aspeto porque já os escutei ao vivo a todos os quatro)! o pimba serve para dar uns amassos e rodopiar o corpo em festas de amigos... o rock leva-me ao prazer e ao interior... o pimba apenas transpiração...
 
Direito Vs Dever?
ui aqui fica a parte mais complicada, pois confundo muito estas coisas... tenho a mania dos deveres primeiro, o dever como parte da minha existência... mas se alguém me atropela os meus "direitos" eu passo-me dos carretos! 
 
Aceitar Vs Respeitar?
não aguento quando me faltam ao respeito, por isso não aceito a humilhação e a prepotência... aceito as diferenças, logo respeito todas elas, mas não aceito que possam servir de oportunismos...
 
Esplanadas Vs Salas?
salas definitivamente, onde se respire cultura e prazer, onde os espíritos trabalhem mais do que os corpos ou os copos... esplanadas apenas em contexto particular, específico... e para ver passar um bom par de pernas! 
 
Curiosidades Vs Coincidências?
as coincidências servem para nos desculparmos de alguma falta de clarividência ou responsabilidade... as curiosidades já são mais uma procura emocional ou física... prefiro um aluno curioso do que um punhado deles muito coincidentes com o pensamento formatado...
 
Mundo Vs Família?
a família é em primeiro lugar o meu mundo... depois é preciso que não me deixe amordaçar por esse pequeno mundo familiar para chegar a outros mundos... temos sempre em redor um mundo novo para descobrir se assim o quisermos, peça a peça, como puzzles...
 
Algo Vs Tudo?Rádio lafões 1.jpg
ninguém abarca tudo... ninguém alcança o todo sem passar pelos algos em cada momento... cada algo deve ser um tijolo de um qualquer todo que ambicionemos alcançar... cada algo deve dar-nos razões para podermos compreender um todo (seja ele filosófico ou poético). 
 
 
Amar Vs Ser-se amado?
ui outro problema... faces de uma mesma moeda?! sou um estranho bicho com necessidade de ser amado, melhor, de me sentir amado, ou me vejo meio perdido... não amo para ser amado... amo porque quero ser amado mas também porque passo melhor vendo os resultados do meu amor pelo outro nas suas diferentes manifestações...

 

Carlos Vs Outros?

o carlos é um copo meio cheio para uns e um copo meio vazio para outros... o carlos pretende ser um copo transparente, onde possam ser vertidos todos os líquidos que o possam encher até transbordar e depois ajudar a mitigar a sede... mas a idade já começa a trazer-me a ideia de que por vezes mais vale que o copo não revele totalmente o líquido que contém nem a quantidade... 
 
Obrigado Carlos!

Ricardo Fonseca, o Semeador

Lamecense de gema, Ricardo Fonseca é enfermeiro, escritor e terapeuta. Atualmente trabalha pela capital, mas o seu trabalho encontra-se espalhado por onde passam os seus livros. Autor de quatro obras ("A Chave do Labirinto",31369363_1775194499190194_5795067164809494528_o.jp "Calcorreando percursos", "Reflexos" e "O Semeador de Emoções") Ricardo Sousa escreve num registo intimista, quase autobiográfico, tendo participado em diversas coletâneas de poesia e prosa, mostrando a sua versatilidade na manipulação das palavras.

 

 

O Ricardo é alguém de sorriso fácil, de bem com a vida e toda a paz que transmite. Desenvolveu o conceito de Escrita Terapêutica onde esta se encontra como um veículo de ajuda na gestão de emoções.

 

 

Fomos ao seu encontro e ele respondeu-nos de coração aberto.

 

 

 

«Cuidar é uma majestosa arte de Vida! Sou artesão de emoções em cada Cuidado, em cada toque de Amor e Esperança, em cada partilha de Alma!» (Ricaro Fonseca)

 

Palavras Vs Atos?

Apesar de vivenciar em plenitude as palavras fazendo parte do meu cuidar, escolho os Atos, pois só através da demonstração física do nosso sentir e pensar atribuímos mais sentido à vida, dando um real valor às palavras que dizemos e escrevemos, que se tornam em algo maior, vivenciando o seu propósito.

 

Espiritual Vs Racional?

Espiritual vivendo em consciência com esse sentir, com essa compreensão dos porquês de estar onde estou, viver como vivo, caminhar para onde caminho, sendo a dimensão que fui aperfeiçoando nos últimos anos a par de um grande processo de autoconhecimento, onde aprendi a lidar com a razão em equilíbrio com o coração.

 

Amor Vs Paixão?

Amor, definitivamente! A paixão por mais que seja o cartão de visita que nos une a algo ou alguém, não tem o mesmo significado e não atribui o mesmo sentido que o Amor, essa força que nos impulsiona, que nos faz viver, que nos faz continuar a nossa caminhada, como agentes desse mesmo Amor.

 

Orientar Vs Educar?

Por mais que haja uma orientação inerente ao processo de educar, faz-me mais sentido esse mesmo processo de educação com a partilha de conhecimento, de experiências e vivências, que permitam a cada pessoa adquirir competências, habilidades para viver da melhor forma possível.

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Sentir Vs Fingir?

Sentir e voltar a sentir uma e outra vez. Onde há fingimento não há um sentir consciente, não há uma conexão connosco próprios que nos permita relacionar com o Outro, pois quem finge o que sente e como vive, está cada vez mais distante e desligado de si mesmo, impedindo qualquer entrega ao Outro.

 

Litoral Vs Interior?

Interior, o meu interior, onde nasci e vivi grande parte da minha vida e onde regresso cada vez que quero restabelecer energias, que preciso de descansar e de me fortalecer para a minha caminhada de vida. O interior tão belo, tão hospitaleiro e tão especial.

 

Passado Vs Ausência?

Passado como uma fonte de grande aprendizagem, de grandes lições que nos permitiram viver as nossas maiores metamorfoses, onde não há lugar para ausência, pois quando amamos garantimos uma constante presença, mesmo daqueles que um dia viveram connosco nesse mesmo passado.

 

Corpos Vs Mentes?

Mentes, sou um apaixonado por mentes, por tudo aquilo que lá habita e que possa criar grandes ideias, grandes discussões e conversas que se perdem no tempo pela sua importância, As mentes que criam, que podem perpetuar o seu legado ao invés dos corpos que um dia desaparecem no tempo.

 

Harmonia Vs Conflito?

Sempre harmonia, apesar de ter aprendido a importância do conflito como fonte de aprendizagem e de transformação, porém em harmonia torna-se mais leve o nosso caminhar, as nossa relações e o nosso viver, dando forças para novos conflitos.

 

Plateias Vs Silêncios?

Silêncios, vários silêncios, pois sou um ser contemplativo, que gosta de estar consigo mesmo a refletir por longos períodos de tempo, dando voz à minha criança interior e despertando-me para uma maior criatividade, serenidade e disponibilidade para lutar, concretizar e viver.

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Aceitação Vs Compreensão?

A compreensão leva à aceitação, pois só posso aceitar aquilo que compreendo, mesmo que não concorde com algo, por isso escolho a compreensão que me permite vivenciar a empatia, de me colocar no lugar do outro para tentar, por momentos, compreender o seu sentir, para aceitar o seu viver.

 

Erro Vs Eternidade?

Erro, a maior fonte de aprendizagem do ser humano é o erro cometido, desde que o saibamos reconhecer, compreender, para não voltar a ser repetido e, mesmo que seja repetido, significa então que ainda temos algo a aprender com esse mesmo erro.

 

Justiça Vs Poder?

Justiça que equilibra tudo aquilo que somos, como vivemos e como sentimos, sendo justos com todos aqueles que nos rodeiam, vivendo essencialmente a justiça connosco próprios, respeitando esse equilíbrio, sem demasiada autocrítica, sem demasiada leveza, sempre justos com cada parte de nós.

 

Arrogância Vs Necessidade?

A necessidade não tem que ser entendida como algo menos positivo, muitas vezes associado à carência, pois foram as minhas necessidades que me levaram a lutar para procurar o que eu queria, que me levaram a reconhecer que precisava de ajuda para as suprimir ou satisfazer, não havendo lugar para a arrogância.

 

Doce Vs Amargo?

Doce em tudo na Vida, na comida, nos afetos, nas relações, nas palavras, nos sentimentos, pensamentos. Adocicar a vida ajuda na sua vivência, não desvalorizando o amargo que nos faz refletir, que nos faz alterar comportamentos, mas sim, doce em tudo.

 

Segurança Vs Risco?

No meu caso pessoal risco, pois sempre fui muito aventureiro em algumas questões da minha vida, arriscando querer chegar mais longe, querer mais para a minha vida, querer sentir, experimentar, vivenciar, sem medo do que pudesse sentir, pois não deixaria que o medo me impedisse de arriscar a Viver.

 

Digital Vs Pessoal?

Certamente pessoal, com os abraços, os beijos, o olhar, o tocar, o sentir, o estar presente cara a cara, olhos nos olhos e viver o melhor de cada relação, apesar de muitas vezes e com bom senso, ser estimulada com o digital para preencher as lacunas da distância e do tempo que impedem um pessoal imediato.

 

Destino Vs Escolhas?

Escolhas, as que fiz, as que irei fazer e que me permitem viver como quero viver, por mais que haja sempre a mão do destino que tem algo reservado para a mim a cada instante, mas escolher viver, escolher o que fazer com o que sentimos e vivemos é algo grandioso, poder viver em pleno o nosso livre arbítrio.

 

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Maturidade Vs Infantil?

Oh pá! Não posso escolher ambos? Considero que amadureci imenso, mas continuo a alimentar aquela criança que existe em mim, que brinca, que ri do nada, que sonha, que é ingénua, que vê o mundo com um olhar tão especial, apesar de a maturidade que me ter levado a conquistar o que conquistei, com aquele brilho de criança no olhar.

 

Perder Vs Aprender?

Aprender sempre com tudo e todas, em especial com cada perda que é vivida ao longo da nossa vida, seja ela qual for. Aprender com tudo o que fazemos e vivemos, para nos tornarmos cada vez maiores, cada vez melhores e vivermos a nossa vida com o máximo de qualidade possível, sendo os grandes aprendizes desta grande mestre que é a vida.

 

Obrigado Ricardo ;)

 

Delfim Tomás

Delfim Tomás da Rocha Dias é um nome que soará estranho a muitos, a outros será um rosto que transmite muito mais que ele próprio imagina.

O Delfim conhece-me há mais tempo que eu a ele e até a mim próprio. A minha mãe contou-me que ainda era eu uma criança de colo e já ele me conhecia. Reconheço no Delfim um espírito maior que o corpo, uma alma imensa. Pedi-lhe um "Versus"; ele acarinhou-me o coração com as palavras.39245807_2094218607276894_7819067440737812480_n.jp

Nascido na Rompecilha, uma pequena aldeia de São Pedro do Sul, abalou para Lisboa aos 13 anos. 34 anos depois regressa, para a serra, tomar conta dos seus pais.

Acha-se camponês feito à pressa e um apaixonado por serras onde tanta vez sobe, fecha os olhos e ouve o mar. Acrescentou ainda que é "um gajo pouco recomendável".

O que não fala, na sua grande humildade, foi deixar tudo para vir para onde o mar só existe na memória e a cidade fica lá longe. Voltou para tomar conta dos pais, conta as peripécias da mãe, com alzheimer, criando pequenos videos sobre este "A minha mãe tem alzheimer". Na sua vida escreveu ainda alguns livros, de poesia. 6 individuais e 3 em parceria na Editorial Minerva.

Para além de poeta, fotografa almas e recolhe conversas, abraça corações.

 

Em "Amizade e uma Lágrima" diz-nos:

 

"Oh tu, que és médico,

trata os doentes como uma flor.

Não há melhor medicamento

que um pouco de amor."

 

"Levaram-me para a Igreja,

cantavam (ou rezavam)...

Em vez de abrirem a caixa,

à volta dela dançavam!"

 

 

Cidade Vs Campo...

Campo ... MAS só descobri isso depois de 34 anos de cidade, talvez a idade, não sei,  tenha pesado neste apaixonamento, agora, pelo campo...
 
incondicionalmente Vs obrigação...
Incondicionalmente... ponho na obrigação o mesmo empenho, mas até no amor só sei amar incondicionalmente, estou-me sempre a esbarrar, é a vidita...
 
Mundo Vs mãe
mãe ... e a diferença está apenas no tamanho, o mundo é a nossa mãe e a minha mãe é Maior do que o mundo...

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incerteza Vs estabilidade
incerteza.... eu, certeza tenho só uma, morrerei, mesmo esta vai ser contra a minha vontade, mesmo sabendo eu que viver na incerteza é terrível, sei também que é o desconforto que faz mexer e, para mim, vida é risco, movimento, instabilidade... a ser um sofá Só com pilhas!... 
 
poemas Vs fotografia
esta é uma grande rasteira... gosto de poemas fotográficos e de fotografias poéticas!...
 
saudade Vs comunhão
comunhão... eu que atrás me confessei instável, aprendi há muito que só se caminha em união, só todos (ou maioria) mudamos o que for preciso mudar, fazemos o que é preciso fazer.................
 
ser-se Vs fazer-se
fazer... porque ser-se toda a vida sem "nada" fazer, mais valia não ter sido!...
 
contar Vs viver
viver... viver tudo e depois se apetecer contar... como "quem conta um conto aumenta um ponto".... viver MESMO...
 
partir Vs voltar
voltar... pela simples razão, o votar a viver na aldeia marcou-me demasiado para eu não escolher o "voltar" a verdade é que eu estou sempre a partir, sem sair do mesmo sitio, da vida de alguém............. e até loiça!!!...
 
dar Vs receber
dar... fui educado dessa maneira, sem me dizerem mas a fazerem-me perceber que a única maneira de receber É dando...
 
voar Vs caminhar
voar.... eu voo até nas caminhadas, eu voo em todo o lado, esteja eu onde estiver, estou a voar, pouso muito pouco.... se tivesse asas, caminharia, só pode!...
 
fé Vs razão
fé... tenho uma enorme fé na razão... para mi a fé é o motor da razão!...
 
mar Vs árvores
árvores... só porque neste regresso ao campo ganhei já a capacidade de ouvir o mar até   da serra de São Macário, custa-me muito ver desbastar a floresta espontânea para plantar eucalipto, não tenho nada contra o eucalipto mas dói-me olhar as nossas serras cada vez mais a ele rendidas!... 
 
neve Vs amor
amor... gosto muito de desenhar corações na neve e não é com toda a certeza para arrefecer o coração... só o amor muda, para melhor!.... mas só muda quem ama, o que eu acho é que a "coisa" amada mesmo não amando fica com vontade DE...!... e um dia experimentará, por isso os que já amam devem amar sem medo para contagiar!...
 
perdoar Vs desprezar
perdoar... perdoar sempre, eu sei que ás vezes parece difícil, mas o momento seguinte é tão bom, tão bom que quem o não experimenta nem sabe o que perde...

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vinho Vs conversas

vinho... isto é mesmo eu no meu melhor!... nem a missa se diz sem vinho! ... gente que eu goste, presunto (não bebo vinho sem comer) broa e vinho leva a excelentes conversas, para mim isso é um pedaço de céu...
 
sorrisos Vs abraços
abraços... é num abraço que eu descubro se o sorriso de quem me abraça é verdadeiro e eu preciso muita vez de um abraço...
 
fôlego Vs sonhos
sonhos.... acordado ou a dormir gosto de sonhos que me tirem o fôlego... mas gosto que os sonhos não fiquem por isso mesmo, não consigo manter um sonho muito tempo se ele não começar a virar realidade, até porque, para mim, os sonhos muito sonhados só, viram pesadelos!...
 
chat´s Vs telefonemos
não uso muito uma coisa nem outra e até estar a responder a uma entrevista por mail foi uma bela seca!... nem a vou re/ler...
 
tu Vs outros
os outros sem mim não seriam a mesma coisa, eu sem os outros não fazia sentido nenhum...
 
Obrigado Delfim!