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CULTURA | MUNDO | ENTREVISTAS | OPINIÃO

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Shortcutz Viseu, #136

Opinião

A sessão #136 do Shortcutz Viseu foi totalmente dedicada ao catálogo da Querelle Films.
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Moscrato

Realização e Argumento: Patrícia Maciel

Elenco: Soraia Chaves, Pedro Lacerda e Dmitry Bogomolov 

Todo o pensamento da personagem principal (Soraia Chaves) insurge-se contra a semiótica do seu próprio desejo, o visível e invisível, e torna-se obsessão o metafórico amor: efeito o anjo e a besta. Todos os segundos conseguem prender a nossa atenção.

A Patrícia Maciel conseguiu transformar a ideia num sistema de pensar armadilhado que quase  supera o clássico de Franz Kafka, ‘A Metamorfose’.

 

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Flumen

Argumento, Realização, Produção: Frederico Ferreira

Elenco: João de Brito, Teresa Faria, João Pedro Dantas, Diana Nicolau, Afonso
Lagarto, Nuno Pereira, Rui Simões

É difícil poetizar as decisões, isto é, ter consciência da odisseia das nossas elipses e do caminho sinuoso do amor a dois, e o Frederico Ferreira conseguiu isso no seu argumento/realização, ao dizer e ao ouvir, a consciencialização dos nossos próprios valores, estéticos ou verbais.

No final da curta-metragem, o conhecimento poético do Frederico é notório, e aparecem a ocupar lugar central na história de David (João de Brito).

 

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José

Argumento e Realização: João Monteiro

Elenco:José Cordeiro, Nuno Nolasco, Susana Brandão, Eloy Monteiro

Acredito que mensagem principal,  da curta-metragem do João Monteiro, seja a ‘retórica’ da moralização e da ética, inevitável catarse na sua edição.

A importância da família, mas talvez seja conveniente distinguir que é uma família perdida.  Não há coisas seguras, e por isso mesmo, no amor não está todo o bem e a toda a esperança. A fugacidade, muitas vezes, questionável. A inversão da dúvida no pensamento do espectador. É importante perceber o caminho que compreende a história.

 

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California

Argumento e Realização: Nuno Baltazar

Elenco: Mónica Chen, Jani Zhao, Adriano Carvalho

California consegue configurar numa duplicidade de sentidos: camuflar verdades perigosas, de algum modo, a fraude de um sonho e como perpetrar o amor nesse sonho.

O Nuno conseguiu, com detalhes significativos, implícitos ou explícitos,  algo belo, estimulando a nossa percepção final, e sobretudo, a nossa imagem de vida, do “sonho americano”. Parabéns. 

 

 

Nuno Camarneiro

Nuno Camarneiro nasceu na Figueira da Foz e é autor duma obra multifacetada.

 

Em 2011 publicou o seu primeiro romance, No Meu Peito Não Cabem Pássaros. Escreveu o livro infantil Não acordem os Pardais, com ilustração de Rosário Pinheiro.

 

Publicou na prestigiada Nouvelle Revue Française na rubrica Un mot d’ailleurs.  Em 2012, foi o vencedor do Prémio Leya  com o romance Debaixo de Algum Céu (traduzido em italiano). O Fogo Será a Tua Casa é a sua obra mais recente.   

 

ESCREVER E LER

SÃO FORMAS MUITO EFICAZES DE CALÇARMOS SAPATOS ALHEIOS


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©Jorge Simão

 

DES: O que não cabe no teu peito?

Nuno Camarneiro: Há muitas coisas que não cabem no meu peito – Injustiças, desigualdades, ódios, restrições às liberdades individuais. Se tivesse algum talento ou aspiração política talvez fundasse um partido, como não tenho limito-me a escrever.

 

DES: Como percebeste que querias estar ligado à escrita romanceada?

Nuno Camarneiro: Comecei a ligar-me à escrita sem perceber, simplesmente lendo, que continua a ser para mim a forma mais profunda e honesta de participar da literatura e da humanidade. Ler, ouvir, receber o passado e transportá-lo para o futuro, no fundo é disso que se trata, lutar ao lado do pensamento e da vontade contra a morte e o esquecimento.  

 

DES: A escrita ajuda a aumentar o conhecimento do nosso eu?

Nuno Camarneiro: O “eu” só se consegue definir a partir do confronto com o outro, com o que lhe é estranho, com o que é diferente. Escrever e ler são formas muito eficazes de calçarmos sapatos alheios, de exercitarmos a função empática e sairmos um pouco de dentro de nós para melhor percebermos o que somos ou o que queremos ser.

 

DES: Preferes a ideia ou a escrita?

Nuno Camarneiro: A ideia é sempre sedutora, uma pulsão sem restrições, uma vontade com a mania das grandezas. A escrita, a concretização dessa vontade, fica sempre aquém, mas o processo ensina-nos muito e traz-nos novas ideias, soluções necessárias para resolver o confronto entre o imaginado e o real.

 

DES: O que mais te inspira no outro e porquê?

Nuno Camarneiro: Inspiram-me as diferenças e também os pontos em comum. Como os Homens são tão diferentes entre si (no que fazem, no que acreditam, na forma como pensam) e, ao mesmo tempo, tão semelhantes (no que sentem, no que temem, no que desejam). A literatura é umas das formas artísticas que melhor explora essa tensão entre a diferença e a proximidade.

 

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©Jorge Simão

DES: Há lugares de nada?

Nuno Camarneiro: Talvez todos os lugares sejam “de nada”, cabe-nos a nós vesti-los de memórias e significado. Pode ser uma estação de comboios, uma rua escondida ou a casa de infância, somos nós que desenhamos os nossos próprios mapas da memória.

 

DES: Onde tens as melhores ideias? 

Nuno Camarneiro: Muitas vezes nos livros dos outros, ou nos filmes, ou peças de teatro. Outras vezes em sonhos, dormindo ou acordado.

 

DES: O que gostavas de fazer que ainda não tiveste oportunidade de concretizar? 

Nuno Camarneiro: Arranjar uma resposta para essa pergunta, encontrar uma causa fundamental e tangível.

 

DES: Há alguma coisa de que te arrependas muito?

Nuno Camarneiro: Há muitas coisas de que me arrependo um pouco, mas não tenho erros ou acertos tão grandes que mereçam o remorso ou o saudosismo.

 

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©Jorge Simão

 

DES: Qual é o teu livro preferido? Ou autor?

Nuno Camarneiro: Tenho dez, ou vinte, ou cem, mas, tendo mesmo de isolar um, talvez o Ecclesiastes, cuja autoria alguns atribuem ao rei Salomão e onde está escrito tudo o que de mais sábio pode ser dito sobre esta nossa condição de sermos homens e mulheres, conscientes e mortais.

 

DES: O fogo é...

Nuno Camarneiro: O trocadilho é fácil, mas verdadeiro, é amor que arde sem se ver. É o que leva as melgas e os mosquitos a queimarem-se numa lâmpada acesa, e os homens também. 

 

DES: Obrigado.

 

Dinarte de Freitas

Dinarte de Freitas, natural da Madeira e actor de mão cheia, não pára de surpreender. Apareceu no filme de João Maia, ‘Variações’, e protagonizou a cena de abertura do sexto episódio da terceira temporada de "Stranger Things", a série sobrenatural dos irmãos Duffer da Netflix, contracenando com o actor Cary Elwes (SAW).

 

"Para mim foi uma surpresa incrível chegar ao 'set' de filmagens e ver uma feira popular completamente recriada."

 

Fez parte da série ‘Ministério do Tempo’ (RTP), ‘A Teia? (TVI) e ‘Um lugar para viver’ (RTP). Escreveu e filmou a curta-metragem ‘As memórias nunca se apagam’ (2010).

Quem não se lembra, quem nunca viu ‘Capitão Falcão’, de João Leitão?


76643686_407700980139466_4236015803255750656_n.jpg©Dinartede Freitas

 

DES: Como percebeste que querias estar ligado à 7.ª Arte?

Dinarte de Freitas: A minha memória mais antiga, agora olhando para trás, do primeiro instinto de que gostava de representar foi aos 5 anos. O fascínio pela televisão mais propriamente pelos desenhos animados, revelava-se mais nas características das personagens, das vozes e do texto, muito mais do que no conteúdo em geral ou como forma de entretenimento. Dava por mim a tentar repetir os gestos e as vozes dos desenhos e repetia as frases e os textos de que mais gostava. Nesta altura os desenhos animados não eram dobrados. Via He-Man, She ra, Dino the Dinasour entre outros. Depois vieram as séries como Moonlight, The Love Boat e foi assim que aos 6 anos já compreendia inglês. Mais tarde o cinema americano na forma de Kung Fu, Westerns, filmes de Acção e Mistério eram géneros que me fascinavam e depois com a idade, esse fascínio pelo cinema, nomeadamente cinema americano, foi crescendo. Eventualmente aos 22 anos, estudei na escola The Lee Strasberg Theatre & Film Institute em NY.


DES: Tens algum processo criativo que te ajude a manter tranquilo? Antes de iniciar um novo trabalho.

Dinarte de Freitas: Sou muito privado no meu processo e na minha forma de trabalhar. Gosto de fazer investigação, seja ela no computador, nos livros através de vídeos ou internet na preparação de um personagem ou trabalho. Mas o processo que me tranquiliza e se revela mais imediato para mim, é o processo da observação. Gosto de observar a vida. Dou por mim, sentado a olhar as pessoas, as situações, consigo ouvir as conversas, perceber os pequenos sinais e gestos que fazemos no dia à dia. É no fundo o meu trabalho de casa sem sê-lo. É no fundo a minha forma natural de ser e isso ajude-me a estar emocionalmente aberto, para a troca que se quer, num set de filmagens ou décor.

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 ©Stranger Things | Netflix

 

DES: Qual foi o trabalho que mais gostaste de fazer?

Dinarte de Freitas: Não sei se consigo responder de uma forma imediata a esta pergunta. Considero os meus personagens pessoas reais. Confesso que nem gosto muito da palavra personagem, pois o meu processo criativo é sempre quase um “parto”. São pessoas que nascem de mim e raramente são versões de mim. Tenho que resolver a minha amizade comigo próprio. Talvez possa dizer que os trabalhos que menos gostei de fazer, foram aqueles que não pude construir em cima de mim. A confrontação com o meu eu original é ainda algo que me custa imenso. Quase a chegar aos 40 anos de idade, é um trabalho que ainda não consegui fazer.

DES: O que gostavas de fazer que ainda não tiveste oportunidade de concretizar?

Dinarte de Freitas: Viajar em família.  Revisitar as cidades que visitei, com os meus pais, irmã e sobrinhos. Mostrar-lhes um Mundo que ainda não conhecem. A vida infelizmente não lhes permitiu, mas quero retribuir tudo aquilo que me deram, sacrificando-se exatamente por terem ficado. 

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©Patricia Castelo Branco

Flávio Rodrigues

Flávio Rodrigues tem formação em Dança pelo Ginasiano, Balleteatro Escola Profissional, Dance Works Rotterdam e pelo Núcleo de Experimentação coreográfica. Em 2012 participou nos encontros Les Réperages/Danse à Lille e integra, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, a residência coreográfica Correios em Movimento/Dança em Trânsito, no Rio de Janeiro.

Desde 2006 que desenvolve os seus próprios projectos (Rúptil| Na era ds castigos incorpóreos e Desenhos | #1 #2 & #3 (2019); Magma| No Limite da Selvajaria (2018); AIM (2016); G.O.D. |Goddess of Desire (2015)  são alguns dos títulos).

Foi intérprete da Companhia Ballet Contemporâneo do Norte,  programador em colaboração com Isabel Barros no Festival Corpo+cidade desde 2014 e colaborador do Balleteatro desde 2012 como criador, formador ou performer.

 

OS MEUS PROCESSOS DE CRIAÇÃO

SÃO BASTANTE ONDULARES.

 

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©Auto retrato | AIM  em Festival Cumplicidades | 2016

 

EU OLHO PARA OS MEUS PROJECTOS COMO LUGARES VIVOS.

 

DES: O solo é a principal base da tua caminhada artística?

Flávio Rodrigues: Sim, claramente o solo é uma recorrência. Eu já fiz alguns projectos em colaboração com outros criadores, como também já recorri a um grande grupo de pessoas, como por exemplo em 2017 para a performance sonora "Efígie|Chorus Landscape" apresentada no Festival DDD/Corpo+cidade (e mais tarde no Festival Mexe), como também  em 2009 com "Primavera" um site specific para os jardins de Serralves. Agrada-me o poder e a força brutal que é a voz de um colectivo, eu gosto de estar e de pensar em conjunto com outras pessoas, acho que a conexão com o outro é das manifestações mais belas que poderemos usufruir.  No entanto, eu sinto uma liberdade muito especial em processos solitários. Não sou um artista propriamente coerente, nem sempre me consigo explicar de forma clara, não tenho horários fáceis nem constantes, sou extremamente exigente, egoísta e... à qualquer coisa que eu quero dizer sozinho, e que acontece quando estou sozinho. Sim, os meus projectos são a solo, são cada vez mais solitários, auto-centrados, contudo não desligados do outro, do universo. Acredito que ao falar de mim e por mim, falo de tantas outras e por outras pessoas. 

 

DES: Preferes a ideia ou a realização?

Flávio Rodrigues: É muito complexo para mim desassociar a ideia da realização, inclusive valorizar uma perante a outra. Os meus processos de criação são bastante ondulares, no sentido em que nem sempre consigo perceber a origem de uma ideia, motivação ou prática, talvez porque me parece que uma realização dá lugar a uma ideia que por sua vez dá lugar uma nova realização e por aí fora, é um processo continuado e orgânico: um movimento gera um desenho, um desenho um som, um som uma cor, a cor uma série de gestos... Eu olho para os meus projectos como lugares vivos, constantemente receptíveis a serem revistos, tocados, alterados. Não estão fechados, e eu gosto muito de ir lá traz reactivar as "ideias" que outrora tive e mudá-las, aquilo que eu exponho nunca é uma repetição de algo que já fiz. Cada momento é único.  

 

DES: Como percebeste que querias estar ligado à dança?

Flávio Rodrigues: A minha primeira professora de dança, Alexandrina Costa, era também pintora, e foi com ela que comecei a dançar e a desenhar, eu deveria ter uns 8 anos, talvez - é muito curioso que também foi com essa senhora que ouvi e pensei sobre o que é Espiritualidade. Eu era uma criança muito expressiva e flexível, a minha família dizia que eu tinha muito jeito, e eu gostava de dançar... mas não mais do que gostava de costurar, pintar ou escrever. Eu fui aquele miúdo que quis ser de tudo e que desistiu de tudo porque afinal, no entretanto, quis ser outra coisa. Aos 11 anos a minha professora de português aconselha os meus pais a inscreverem-me no ballet clássico no Ginasiano, mas acabei por desistir porque me tornei um adolescente punk que queria viajar, ser rebelde e fazer artes de rua. Aos 19 anos descubro a escola profissional Balleteatro, e foi brutal, porque é lá que percebo que para além de dançar poderia criar tudo o que envolve essa dança. Eu fiz o curso com a clara ideia que queria ser coreógrafo ao invés de bailarino, no entanto participei em muitos projectos como intérprete porque acho que, por um lado apareceu sempre alguém que me fez acreditar que tinha jeito e também porque me fui deixando levar... contudo, numa grande parte desses mesmos projetos eu acabava por, com um prazer muito especial, pensar os figurinos, a musica ou a luz. Hoje, eu não me sinto bailarino, e gosto de o dizer, porque me abre porta para um lugar onde eu não tenho um papel propriamente definido, é um lugar de experimentação, investigação e criação. 

 

ALGUNS DOS MEDOS FORAM ULTRAPASSADOS, OUTROS NÃO, NOVOS SURGIRAM,

E ALGUNS TALVEZ SE TENHAM TORNADO EM FORÇA QUE ME FEZ AVANÇAR,

GANHAR CORAGEM E IR.

 

DES: O que mais te inspira no medo e porquê?

Flávio Rodrigues: Curiosa essa tua pergunta. Para o meu projeto AIM (2016) eu recorro ao medo como palavra-chave, na altura referia-me talvez à Europa e a uma relacionada constante ameaça de fim, referia-me também à enorme crise de refugiados. No entanto eu acho que o medo é algo que está, mesmo que de um modo subliminar, presente em vários outros dos meus projetos. Talvez porque me lembro muito bem de em criança ter medo da minha sexualidade, do meu género, dos meus gostos, vontades e sonhos. Eu cresci numa zona muito pequena, onde seres gay era uma doença e onde dançar ou costurar era coisa de "maricas". Eu tinha medo de ser motivo de gozo, tinha medo que me magoassem, então eu menti, escondi e disfarcei muito, e essas mentiras naturalmente alimentaram um medo que às vezes se tornava um gigante. Outros medos, tal como reconhecer o medo na minha mãe, avós e tias pelo facto de serem mulheres, reconhecer o medo da pobreza, da falência e do envelhecer. É claro que hoje outras palavras-chave emergem, alguns dos medos foram ultrapassados, outros não, novos surgiram, e alguns talvez se tenham tornado em força que me fez avançar, ganhar coragem e ir, talvez. Por isso sim, mesmo que não considere elementar, eu acho o Medo inspirador para os meus projectos criativos. 

 

thumbnail_Fotografia tirada durante o processo de ©Processo de criação para  a performance RARA Um discurso ingénuo e utópico | 2013

 

O BOM E O MAU SÃO COISAS MUITO

COMPLEXAS PARA MIM.

 

DES: Sentes que tens mais facilidade em falar através da dança, do desenho? Chegar mais depressa ao outro. Usas a dança para falar de coisas boas, coisas más. É a tua protecção ao medo? 

Flávio Rodrigues: Eu cada vez recorro menos à dança e talvez cada vez mais ao desenho, à ação/performance e ao ao som. O bom e o mau são coisas muito complexas para mim, tendo a afastar-me de definições muito binárias e/ou unilaterais, eu prefiro mergulhar em zonas mais cinzentas. Não acho que seja uma proteção ao medo, talvez seja mais uma forma de olhar para "ele".

DES: Onde tens as melhores ideias? 

Flávio Rodrigues: "Melhores ideias...", não sei se tenho ideias que sejam melhores ou piores ... Mas claramente, caminhar é um processo rico para mim. 

 

DES: Qual é melhor conselho criativo? 

Flávio Rodrigues: Quando dou aulas (que é algo que cada vez dou menos), tendo a esforçar-me para ser um professor que opta pelo reforço positivo. Não gosto de dizer que algo "não está bem".

 

DES: Tens algum processo criativo que te ajude a manter tranquilo? 

Flávio Rodrigues: Meditação e caminhar. 

 

DES: Qual foi o trabalho que mais gostaste de fazer? 

Flávio Rodrigues: Alguns projetos surgem de processos mais interessantes que outros, claro. Mas não sei mesmo como salientar um que tenha gostado mais.

 

NÃO CHORO MUITO, NÃO.

MAS FICO MUITO TRISTE.

TENHO SAUDADES.

 

thumbnail_Fotografia tirada em 4BidGallery em Mest

©4Bid Gallery em Amesterdão | Performance Rúptil -Na era dos castigos incorpóreos| 2019

 

QUERO EXPLORAR A MADEIRA COMO MATÉRIA BASILAR.

 

DES: O que gostavas de fazer que ainda não tiveste oportunidade de concretizar? 

Flávio Rodrigues: Inicio em 2020 um projeto que quero muito concretizar, que é passar mais tempo na oficina de marcenaria do meu Pai. Quero explorar a madeira como matéria basilar. 

 

DES: Como vês o futuro da dança? 

Flávio Rodrigues: Vejo um futuro altamente. Mas claro, reflectir sobre a dança no território político, financiamento e essas questões mais, é toda uma outra e longa conversa. Mas assim em modo resumo, é lógico para mim que acho pequena a "fatia de bolo" que o estado português destina para a cultura, e dentro dessa já pequena "fatia", acho ainda mais pequena a "fatia" para a criação artística... acho que Portugal precisa de entender a importância da criação artística, entendendo nesse seguimento, que a arte não tem que ser (de modo imediato) lucrativa financeiramente, porque o seu lucro é de outra natureza. 

 

DES: Há alguma coisa de que te arrependas muito?

FLÁVIO RODRIGUES: Não, assim que me lembre de repente, não. 

 

DES: É difícil fazer-te chorar? 

FLÁVIO RODRIGUES: É muito difícil algo fazer-me chorar, as vezes até me assusto com isso, confesso, ouve uma altura em que cheguei a achar que tinha os canais lacrimais bloqueados... A minha mãe conta-me que em criança chorava muito, talvez tenha só esgotado as lágrimas. Não choro muito, não. Mas fico muito triste. Tenho saudades. Perco-me em melancolia, por vezes. 

 

DES: Até onde irias por amor? 

FLÁVIO RODRIGUES: O que é o amor?

DES: Obrigado. 

 

 “caminhar é dar forma, seguir um percurso, modelar com os pés, se o atendermos a concepções mais antigas. Esse andar que faz caminho, vaguear poético, pode ser visto como um passeio, mas também como exploração, como viagem surrealista ou deriva situacionista”

Jean-Jacques Rousseau