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Depois em Seguida

CULTURA | MUNDO | ENTREVISTAS | OPINIÃO

15 de Maio, 2020

#odiaemqueopoemarebentoudochão, Pedro, o Leitão

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©Iolanda Moutinho


Lenho

 

Arranquem-me o cabelo!

Arranquem-me as unhas!

Arranquem-me os dentes!

Se isso vos faz contentes.

 

Arranquem-me o orgulho Pouco me importo

Arranquem-me tudo o que em mim ainda é digno

Eu isso cá bem o suporto

 

Arranquem-me as raízes e a memória

A minha pátria e a própria História

(Nem nunca foi essa a minha Glória)

 

Arranquem-me tudo o que vos seduz

Arranquem-me a vida, já vos disse!

Mas não me arranquem da Cruz.

 

Pedro, o Leitão

 

14 de Maio, 2020

#odiaemqueopoemarebentoudochão, Paulo Costa

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©Carlos Daniel Marinho

 

Amor despessoal

Entorpecido por um sol molhado,
refugio-me na sombra fugidia dos telhados
que namoram um céu transparente.
Nas janelas pasmadas e varandas sorumbáticas,
pardais consertam as asas e os gatos lambem o tempo.
Na rua, rostos de pedra,
sulcados por ácidas lágrimas,
ignoram-me no destempo das suas desvidas,
enquanto, nas beiradas, sardinheiras e pombos esquecidos
me espreitam a letargia em que amo (secretamente) despessoas.

Paulo Costa 

14 de Maio, 2020

#odiaemqueopoemarebentoudochão, Margarida Piloto Garcia

ouvidizer2.png

© Iolanda Moutinho 

 

Ouvi Dizer

 

Ouvi dizer que neste mundo

as mulheres têm penas mas não voam

e as vitórias esmagam-lhes o peito.

 

Ouvi dizer que o vento só lhes é favorável

quando gritam e contam tudo às árvores

e atravessam o vazio à boleia de uma lua cheia.

 

Ouvi dizer que moram na História

mesmo que as tentem apagar

construir muralhas ou mergulhá-las em sangue

ou mesmo enterrá-las num chão negro.

Mesmo que ganhem espinhos, elas florescem

e todas as flores despertam nas feridas abertas.

 

Ouvi dizer que só a arquitectura dos seus corpos

sustenta o universo e desenha o horizonte

em linhas perfeitas e caligrafias nostálgicas.

 

Ouvi dizer que é graças a elas, que se dá nome às coisas

e se inventam palavras capazes de vencer a morte.

 

Margarida Piloto Garcia

 

 

14 de Maio, 2020

#odiaemqueopoemarebentoudochão, Manuel Alves

 

ouvidizer.png


























© Iolanda Moutinho 



Superlativo de Loucura

 

“Ter que estar perto de ti

E ao mesmo tempo tão longe

Não é fácil…”

Palavras tuas. Sinceras, sinto-as.

Sinto-me poema proibido, frágil

Uma força de querer ser e estar

De forma simples e bela

Como somos, como nos sentimos

De maneira pura

Amorosa

Livres de tudo, menos de nós

A fazer sonhar

 

Sinto-te!

Sentes-me.

Escrevo-te! Lês-me.

Sentidamente. Cada palavra

Sou! És!

Coração a coração

Vou? Serás.

 

Raça de meu querer

Alegras, inspira, preenches

Rasgo-te a pele

Entro em ti. Visto-te. Estás.

Respiro e és-me

Expiro e não sais

 

Somos inconfortáveis

Hora-a-hora

Abanas-me

Consumo-te

Assim

Sem ais, nem uis

 

Só entende quem ama

Não são precisas razões

Não são necessárias privações

Tal como este poema

Sem métrica ou estrutura gramatical

Só tu..

Num superlativo de ternura

 

Eu tua paixão… tu minha loucura…

 

Manuel Alves

14 de Maio, 2020

#odiaemqueopoemarebentoudochão, Lains de Ourém

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© Iolanda Moutinho 

 

Somos o grito

Rápido

Das romãs a racharem

A pele sequiosa

À luz outonal da aurora.

 

Depois

Buscamos a melhor sede

Para que façam

Algum sentido

Os bagos

E o tempo de sacrifício guardado para os filhos.

 

Como viemos

Acabamos.

E só a memória rubra

Pode ser nódoa em linho

Como marca perene

Nos amigos

Também eles esforço vegetal

Ao sol amargo do inabalável silêncio.

 

Lains de Ourém

14 de Maio, 2020

#odiaemqueopoemarebentoudochão, José Miguel Araújo

miguel.jpg

© Carlos Daniel Marinho

 

Agora

Agora…

Sentimos o chão vazio e as estrelas a olhar,

Viajando entre as brumas dos vales e da saudade,

Cidades perdidas que nos abraçam a chorar,

E nos embalam para um caminho de amizade.

Agora…

O tempo despertou a nossa atenção,

A sapiência de quem se atreve a perder a alegria,

Entre a espada e a parede fica a razão,

Que não soubemos guardar na neblina da magia.

Agora…

Não há tempo para se perder na solidão,

Nem vidas perdidas se conseguem animar,

 Iniciamos a viagem que se perde no coração,

 E se encontra ao abraçar.

 

José Miguel Araújo 

14 de Maio, 2020

#odiaemqueopoemarebentoudochão, Jorge Santos

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© Carlos Daniel Marinho

Dor Feliz

ÉUMADORFELIZAQUEME
 [LEMBRODESOFRER
 [TODOSOSDIASATEU
 [LADOUMADORQUE
 [QUEROQUESEPRO
 [LONGUEATÉ
 [DIZERMOSCHEGA
 [EDEPOIS
 [CONTINUARMOSÉA
 [DORFELIZQUE
 [SUPORTAMOS
 [CONTENTEST
ODOS
 [OSDIASQUENOS
 [TOLDAOSSENTIMENTOS
 [ENOSALIMENTAA
 [AL
MADEPEQUENOS
 [NADASCOMOOCHEIRO
 [DASTORRADASQUEDEIXAS
 [QUEIMARSEMPREQUE
 [OSNOSSOSCORPOSSE
 [PRENDEMAOPEQUENO
 [AL
MOÇOPARASÓSE
 [DEIXAREMÀNOITE
 [QUANDOFECHAMOS
 [OSOLHOSE
NADA
 [MAISEXISTEANÃO
 [SEROSNOSSOSSONHOS.

 

Jorge Santos 

14 de Maio, 2020

#odiaemqueopoemarebentoudochão, Jorge Nuno

nuno.jpg

© Carlos Daniel Marinho



Estranha Perfeição 

 

Ai… se a vida na Terra

Fosse estranha perfeição

Sem um erro cometido

Próprio de gente capaz,

Sem uma única desilusão

Por não se estar iludido,

De conhecimento adquirido

Por aprendizagem eficaz,

Entrega franca ao amor

Incondicionalmente assumido,

Gente feliz em liberdade

Mente livre de temor,

Findo o espólio de horror

Que tanta vida desfaz,

Apaziguada a vil guerra

Perpetuado o mundo em paz.

 

Assim fosse a vida na Terra…

Nesta estranha perfeição

Um mundo como convém,

Bem longe destas lérias

De políticos sem pudor

(Que isto… a cabeça ferra!)

Resgatada a imortalidade 

Em vida humana que jaz,

Digo com muita convicção:

Não voltaria do Além!

Talvez, pensando melhor…

Pelo bem que a Terra tem,

Pelo prazer que satisfaz,

Com anjos em cumplicidade

Regressasse em inação

Para pecar na vaidade

De passar cá umas férias!

 

Jorge Nuno

14 de Maio, 2020

#odiaemqueopoemarebentoudochão, João M. Pereirinha

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© Iolanda Moutinho



A Poesia Dos Dias

 

A poesia dos dias não aceita rimas

Ela rola solta na praia dos dias,

É uma onda de gente que

Que se enrola sozinha,

É um mar de espuma

Que nos abraça ao longe.

A poesia dos dias não conhece isolamento,

Ela é uma ponte de água

Nas dunas do deserto.

 

A natureza ignora a nossa solidão,

Escrevendo poemas

Nas asas dos pombos,

No canto dos pássaros,

Nas palavras que o vento levou no ar.

 

A borracha do tempo apaga a memória

Dos dias sem horas, das noites de sono.

Sobra espaço nas folhas do ócio

Preenchidas de vida, amor e saudade.

 

A poesia dos dias alimenta-nos a alma,

Mata a fome do Homem

E a tristeza do momento.

É um rio de imagens

Nas colinas da imaginação.

A poesia dos dias é água corrente,

Ela é a semente da fruta

Que dá lugar à árvore da vida.

 

A poesia dos dias é uma brisa

De ar puro e um bafo de calor

Na humidade do inverno.

Ela é a folha caduca

De um afeto sincero!

 

João M. Pereirinha

14 de Maio, 2020

#odiaemqueopoemarebentoudochão, Idalino Rocha

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© Carlos Daniel Marinho

 

Crónicas Que O Tempo Criou...

 

O tempo ninguém o diz

às vezes é como a meretriz

umas vezes cristaliza o prazer

outras, luta para sobreviver

 

Inocência, juventude pedida

às vezes soa como despedida

ar, vento, sopro  desaparece e aparece

espírito cristalino, água que aquece

 

Mar, vagas perdidas, tresloucadas

rochas beijadas, felizes, livres...

céu azul imenso, paisagens retocadas

 

Ilhéu, coração de gigante sem fim

alma omnipresente, apaixonada

por um mundo e vida emoldurada.

 

Idalino Rocha