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Amor, O Caprichoso Boomerang

por CARLOS MARINHO

Psicólogo Clínico e da Saúde, certificado pela EuroPsy; Membro Efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses; Diretor do espaço CresSendo, em Braga

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Gérard DuBois

Pena é não haver um manicómio para corações, que para cabeças há muitos

[Florbela Espanca in ‘Correspondência’ (1912)]

 

Na pós-modernidade não existe já um conceito nem um trajeto unitários. Não há definição que semanticamente lhe concentre todas as nuances. Há uma pluralidade de semânticas do Amor e a reboque, toda uma multiplicidade de ideários amorosos consequentes. Sabe-se que a compasso do movimento romântico ocidental, o Amor passou a basear-se na identificação projetiva como processo pelo qual os/as potenciais parceiros/as se atraem, gerando entre si uma motivante sensação de totalidade recíproca. Tornando-se o Amor romântico a base do casamento moderno, a livre escolha de parceiros/as associa-se agora ao enamoramento e toma para propósito a procura de uma pessoa especial.

A identificação projetiva é um mecanismo psíquico inconsciente e automático que ocorre sempre que um aspeto desconhecido de nós próprios/as é ativado, deslocado e depositado em certos objetos e/ou pessoas. De forma simples, durante o estado nascente de enamoramento (vulgarmente conhecido por estado de 'paixão') sentimo-nos atraídos pelo tanto que projetamos no Outro, a partir do tanto que em nós desconhecemos. Queremos ao Outro como Narciso quer Narciso ao lago. Sob o efeito deste 'estado nascente', menorizam-se os defeitos do Outro, maximizam-se as suas qualidades, distorce-se a sua realidade. 

Um demorado olhar lúcido sobre a sociedade atual perceberá que a prevalência dos valores individualistas têm vindo a traduzir-se numa ética de libertação pessoal e de autorrealização sem precedentes; mas também a perverter-se para uma diminuição do diálogo, do espírito de solidariedade e de tolerância ativa, e para uma perigosa promoção do narcisismo em detrimento da imprescindibilidade do Outro na manutenção de relações sadias e significativas. O desinvestimento afetivo vai gerando uma crescente estranheza face ao que é do domínio das emoções e das competências sócio-emocionais; consequentemente, as relações interpessoais tornam-se mais fugazes, mais banais, destituindo-se do seu carácter direto e humano.

Da prevalência do idealismo sobre a racionalidade, valorizam-se relações veladas pela excitação do mistério e do exótico, onde o Amor será tanto mais puro e autêntico quanto mais permitir perceber o Outro como um ideal. Não raro, a intimidade romântica converte-se assim no espaço para a reconstrução da imagem idealizada do “si próprio/a”, alimentada pelos padrões de uma cultura que exalta e glorifica um ‘eu logocêntrico’, devolvendo-a depois, de forma confiante, ao convívio social mais amplo, e menos íntimo.

Socialmente apoiados pela propaganda do umbiguismo, recusamos tudo quanto se não perceba feito ao talhe exato da nossa fantasia; preferimos o espelho que melhor capte o ângulo da nossa presumida idoneidade, evitando aquele que nos mostre as incontornáveis imperfeições do humano em nós. À medida que a frustração das expectativas se amontoa, a prevalência do individualismo por sobre a dimensão ética da relação instala um sombrio sentimento de precariedade, em que existe sempre a possibilidade de se escolher outra pessoa, em que ninguém é insubstituível. Isto sugere que a probabilidade de se sair desapontado da relação é maior, e explica parcialmente a crescente ansiedade afeta ao compromisso da conjugalidade.

Reagindo sob influência da ansiedade, a atividade humana dispersa-se na sôfrega busca de novos prazeres e lucros que possam compensar o vazio interior, deixando incólume todo um cadastro de lições por ressignificar. E assim, o Amor convertido a um dos mais cobiçados recursos evitantes face a tudo o que aparente limitar a expressão da felicidade humana individual, passa a ser outra das obrigações consumistas da indústria capitalista – um Amor agite-antes-de-usar.

Mas a queda das máscaras, sabemo-lo também, é praticamente inevitável. À medida que os/as apaixonados/as vão retirando as suas projeções, o retrato de um/a e outro/a surge na sua crua veracidade sem mais efeitos especiais. Caduca o ‘efeito Cinderela’ do estado nascente de enamoramento. No número das boas notícias, porém, conta-se a de que o Amor é uma competência treinável – acessível a quem se capacitar da importância de compreender, aceitar e fruir da diferença, regulando sentimentos de frustração e comportamentos de birra frequentemente associados à quebra da 'idealização'. O desenvolvimento da personalidade humana consiste largamente em assimilar os conteúdos projetados, tornando-os conscientes e parte do nosso psiquismo. Não estando centrados/as e conscientes a respeito de quem somos, dificilmente conseguiremos regular a tendência natural para distorcer o Outro, e o teatro de sombras mantém-se em cena.

Se nada nos põe mais a nu do que o espelho do olhar do Outro, é apenas sadio identificarmo-nos positivamente com o que vemos. Sem a capacidade de reconhecer, cuidar e fortalecer uma noção organizada e real de ‘eu’, as tentativas de orientação rumo ao Amor poderão ver-se severamente obstaculizadas. Quem toma o Amor por estratégia de evitamento ao real, subjuga-se à própria amputação. O Amor é próximo de um momento de verdade, é a chamada ao crescimento do Peter Pan em nós: quem a recusa, condena-se ao contramundo da «Terra do Nunca», e toda a sua linha desenvolvimental é paralisada no tempo.  

Na sociedade de uma ‘ejaculação emocional precoce’, a necessidade tiranizada pelo ‘quero já’ trivializa o suado compasso de espera que a sedução implica; faz-nos esquecer que o Amor, como o sono, deve sobrevir espontaneamente à consciência. E tal como vamos adormecendo ao longo do dia, também vamos aprendendo a amar ao longo da vida. O Amor vive do desejo, e o desejo da ausência que parecemos não conseguir tolerar; da ânsia que nos não permitimos sentir; da imaginação que avidamente trocamos pela imediatez do consumismo. É o Amor que escolhe a sua hora de chegada; se tanto, permitamo-nos ser encontrados/as. Ainda assim, a presunção narcísica é mais forte: queremos tomar para nós as rédeas da realidade. Forçamos o que não pode ser senão involuntário. E o resultado é a experiência de um sentimento postiço, não vivo, não vivificante.

Com o medo do que há de mais desolador na solidão do ser-se humano, multiplicam-se os/as hipoativos/as com défice de atenção relacional. Acaba isto por resultar num vazio intersubjetivo de estar-com, uma desintegrante desinteriorização das vivências pessoais, repassado de experiências transitórias, epidérmicas e banalizadoras do Amor e do compromisso.

A relação otimal não é aquela que une pessoas perfeitas ou iguais, mas aquela onde cada um/a aprende a aceitar as suas próprias imperfeições e as imperfeições do Outro, convivendo harmoniosamente com elas, admirando-as e celebrando-as, querendo conjuntamente o que é importante para cada um/a.

Semelhante aprendizagem relacional implica dispormo-nos a conhecer o Outro por quem ele é, através de um processo que se impõe naturalmente lento, gradual, e tentativo, na sua mais irredutível singularidade. Para sermos bem-sucedidos, importa praticarmos uma atitude de recetividade, de acolhimento e de cuidado, incentivando o Outro à expressão máxima da sua individualidade, e abstendo-nos de força-lo aos moldes de um protótipo ideal, anterior à sua realidade própria, fazendo exatamente o mesmo connosco. Será por isso apenas assisado que antes de nos entregarmos a alguém que concentre aspetos da nossa admiração, possamos desenvolver primeiro essas características em nós mesmos/as: sermos quem gostaríamos de ter a nosso lado.

Não há praticamente nenhum empreendimento que seja iniciado com tão tremendas esperanças e expectativas, e ainda, que falhe tão regularmente, como o Amor. Há quem se furte às rosas por temer-lhe os espinhos; quem boicote as oportunidades de demorá-lo receando a rejeição ou o maltrato; quem não lhe bata à porta, por medo a que não lha abra. Há-os/as para quem se torna mais fácil deprimir do que enfrentar a tristeza de uma não-reciprocidade; há-os/as para quem seja mais cómodo cair em ansiedade do que enfrentar o medo. Muitos/as se queixam, como Espanca: “Pena é não haver um manicómio para corações, que para cabeças há muitos”. Tal como a vida objetiva dos nossos dias, também a nossa interioridade psíquica vive do que lá se põe dentro. Em grande medida, cabe-nos desenvolver a força interior necessária para subsistir à dureza dos desafios. Isto implicará, antes de mais, um entendimento compreensivo, tolerante e 'amável' de nós para connosco próprios/as. Como um boomerang, a experiência do Amor devolver-nos-á sempre o muito ou muito pouco que nos permitimos investir.

O caráter ativo do Amor pode ser descrito afirmando-se que ele consiste, antes de tudo, em dar, não em receber – dar de nós mesmos/as, do nosso tempo, da nossa compreensão, do nosso conhecimento, dos nossos sentimentos. Dar, temendo desde dentro essa dádiva, condiciona e poderá mesmo paralisar o processo de entrega. É desde dentro que começa o Amor que podemos reciprocar: desde a aceitação dos medos e inseguranças que são expressões máximas da nossa humanidade. No ato de dar, algo nasce, e ambas as pessoas envolvidas tornam-se gratas pela vida que para ambas nasceu. Ser-se em humildade, verdade, coragem, fé e disciplina, de si para consigo mesmo/a e, por extensão, no encontro com o Outro, é permitir que o Amor se sagre como uma força que produz mais e mais e mais Amor. Até mais não haverem manicómios capazes de conter o tanto que nos transborde do coração.

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