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Depois em Seguida

CULTURA | MUNDO | ENTREVISTAS | OPINIÃO

Ana Filipa Rodrigues

O Reservatório de Sensações, não quero exagerar, mas é, provavelmente, uma das mais bonitas contas do instagram de fazer crescer água na boca.

Ana Filipa é licenciada em comunicação, mas é a gastronomia que a motiva a “falar, a reunir as pessoas à volta da mesa e a despertar conversas longas e preenchidas de sabores e texturas”. Adora “pastelar” e “engordar” a família e amigos. Apaixonada pelo campo e pelas viagens, espelho do Reservatório.

No natal passado fotografou um editorial para a Guida Design Eventos e em 2018 lançou um calendário com receitas.

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©reservatóriodassensações

 

DES: O “Reservatório de sensações” é um blogue dedicado à comida e à viagem. O instagram do Reservatório é bonito, cuidado.  Como surgiu a ideia?

Ana Filipa: O Reservatório de Sensações é um projecto já com 12 anos. Surgiu numa altura em que eu era jornalista e sentia a necessidade de um espaço para partilhar as sensações, as histórias, os apontamentos, as situações caricatas que encontrava no dia-a-dia e não podia expor nas notícias. Na realidade, ao início era mais uma espécie de bloco de apontamento bastante pessoal, bastante emotivo, sem ser encarado com um projecto online. O Reservatório de Sensações tal como é hoje, só nasceu quando deixei a área do jornalismo. Aproveitei essa época para alimentar a minha paixão pela cozinha, por recolher receitas da família, mas também para falar um pouco das viagens/passeios que habtiualmente costumo fazer. O projecto começou a ser algo mais estruturado, com conteúdo regular, com as sensações que saiam da minha cozinha e dos meus passos. Mas este não é um projeto fechado e como tal há cerca de dois anos, com o regresso ao campo, tenho-me dedicado também a redescobrir a jardinagem e a agricultura. Outra das minhas paixões que começa a ser transposta também para o blogue e para o instagram do Reservatório de Sensações.

 

DES: Quais foram os melhores momentos desde que começaste o Reservatório?

Ana Filipa: Sem dúvida que o melhor momento do blogue aconteceu em Dezembro de 2017, aquando do lançamento de um Calendário de 2018 com receitas minhas. Uma iniciativa que contou com ilustração de Ana Seia de Matos e design de Luís Belo (gosto muito de trabalhar com eles). Nesse lançamento, tive o prazer de juntar muitas pessoas de bom coração que me seguem há anos e que me desafiam a continuar este singelo projecto. Foi um momento de passar do virtual, para o físico, de perceber que o Reservatório de Sensações pode ter outras camadas, para lá do que se vê nos ecrãs dos computadores ou dos telemóveis. Mais recentemente, tive a oportunidade de fotografar um Editorial de Natal para a Guida Design Eventos, inspirado nas memórias serranas e rústicas. É outro dos momentos felizes deste meu projeto. Mas são vários os momentos mágicos que tenho tido a oportunidade de viver graças ao blogue. Agrada-me o facto de graças a ele ter conhecido pessoas muito interessantes com projectos que podem fazer a diferença no dia-a-dia.

 

Des: Consegues ver-te sem ninguém à mesa ou achas que vais ter sempre necessidade de estar com a mesa cheia?

Ana Filipa: Cresci numa pequena aldeia (do concelho de Viseu)  onde o espirito de partilha era um sentimento geral. Fosse em que casa fosse, havia sempre lugar para mais um à mesa. Por exemplo, na minha casa de infância, havia um pátio exterior com acesso à rua. Sempre que organizávamos uma festa, quem passava na rua era convidado a estar connosco, a comer uma fatia de bolo ou a brindar à saúde. Era prática comum. Cresci com a mesa lá de casa sempre cheia de pessoas. É uma parte de mim, da minha personalidade. Portanto, sim, ter a mesa lá de casa cheia de boas pessoas e de boa comida é para mim sinónimo de felicidade. Contudo, confesso que há um lado meu que também precisa de calmaria. Quando quero experimentar novas receitas, novos sabores, fazer invenções, gosto de estar sozinha, sentada à mesa comigo mesma e com o meu paladar. Parece-me é uma forma de viver em equilibrio.

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©reservatóriodassensações

 

DES: O Reservatório é o único projecto deste género? Tens o sonho de te lançares em novos projecto?

Ana Filipa: Sou uma rapariga de sonhos, às vezes em demasia (sorriso). Mas sim, gostava acima de tudo que o Reservatório conseguisse crescer do virtual para o físico, com novas iniciativas, nomeadamente produtos ligados quer à gastronomia, quer à jardinagem. Sonho em criar mais conteúdo nestas áreas, mas de forma a que não fique confinado ao espaço virtual. Espero que com o início de um novo ano, (quase) início de uma nova década, isso seja possível.

 

DES: Sair da cidade e voltar a viver no campo é a felicidade suprema?

Ana Filipa: Sem qualquer dúvida. Já tive a sorte de morar em várias cidades de Portugal, todas elas lindas e maravilhosas, mas é no campo que o pulsar do meu coração encontra o ritmo certo para bater. Talvez por causa das minhas raízes, das memórias de infância, das tardes passadas na quinta dos avós, dos passeios com a ovelha mascote da família, da apanha da batata ou da desfolhada do milho, talvez por causa de todas essas sensações antigas que fazem parte da minha história de vida, sinto que o campo é o meu lar, a minha inspiração, a minha liberdade. Ter voltado ao campo, permitiu-me repensar uma série de comportamentos, permitiu-me abrandar o ritmo, mas acima de tudo permitiu-me respirar, não me sentir aprisionada entre betão.

 

DES: O que significa para ti as tradições do interior do país?

Ana Filipa: São uma herança preciosa. Principalmente no que toca a tradições gastronómicas. Não estamos a falar apenas de receitas antigas, estas tradições representam conhecimento antigo, histórias, vivências, experiências que passaram de mão em mão, de boca em boca, até chegar aos nossos dias. Representam parte do nosso património imaterial que deve ser cuidado e guardado para que as próximas gerações possam ter acesso a ele.  Por isso, fico muito contente que hoje em dia haja uma valorização preciosa destas tradições, seja através de recolhas fotográficas ou escritas, seja através da criação de espaços museológicos bem pensados ou outro tipo de iniciativas. Contudo, apesar do respeito que devemos ter pelas tradições, acredito que há sempre espaço para criar novas tradições e novas formas de olharmos para as antigas.

 

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©reservatóriodassensações

DES: Como ocupas os teus tempos livres?

Ana Filipa: Esta é muito simples de responder (sorriso): a cozinhar, a comer, a jardinar e a passear. E em tudo o que isso implica, como ler muito, aprender muito em formações e workshops, caminhar ao ar livre, conduzir quilómetros e quilómetros.  

Des: Obrigado.