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'As Aves Não Têm Céu', de Ricardo Fonseca Mota

Opinião | Literatura

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Um homem vagueia pelas noites insones, revisitando o passado e a culpa que lhe vai consumindo os dias. A mulher trocou-o por outro e levou consigo a sua única filha, ainda pequena. Na semana de férias em que finalmente pode estar com ela, sofrem um acidente de viação que resulta na morte da filha. A culpa e o passado cruzam-se neste romance feito de gente que vive no escuro, como o taxista que várias vezes apanha este pai e o transporta pela cidade silenciosa, e os dois companheiros com quem desde a morte da filha partilha o espaço.

 

Trata-se de um romance sobre a importância de modular a sensibilidade ao medo, procurando avidamente captar as diversas fórmulas “químicas” da existência humana (ou o seu fim, a morte) e a influência da culpa: que não adianta ultrapassar ou que necessitamos de ultrapassar, o silêncio, o verdadeiro silêncio.

“Se não disseres a verdade sobre ti próprio, não poderás dizê-lo sobre os outros." (Virginia Woolf).

Ricardo Fonseca Mota conseguiu a verdade nas personagens, todas elas principais, todas elas com a hostilidade necessária e ilusões para conquistar o leitor, não fosse “este” o maior desconfiado da história e no final o culpado, advertência minha(!).

Leto, a outra, o engenheiro, o Raul, o Cid, o Eduardo que é Falcão ou o Falcão que é Eduardo, o narrador, o narrador fingido, o fingido do narrador, a Úria (que representa tão bem a salvação, como se fosse a caixa de madeira de Cid, “com uma fechadura demasiado pequena para poder espreitar, feita de silêncio e escuridão”), o amor que é um bom negócio e a noite como preceito religioso, tornam a leitura deleitável, e conseguem transpor para o leitor, um sentimento ímpar de discussão sobre a dor no outro, a culpa em nós, o “talvez fosse” e as jarras que “pedem flores novas”.


“Afinal, o que é a epifania da carcaça?”

Num jogo de desconfiança entre perguntas não-retóricas, humor, momentos complicados e outros embaraçosos, Ricardo Fonseca Mota, transforma As Aves Não Têm Céu – provavelmente – numa das melhores construções literárias do ano ( não estou a exagerar).

Cheira “a juncos, e hortênsias, e a silvas”.

E se o livro fosse lido do fim para o início?

Parabéns.

(-Boa viagem.)