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Depois em Seguida

CULTURA | MUNDO | ENTREVISTAS | OPINIÃO

Ausente na Primavera [ou Uma Brecha na Matrix]

Crónica Carlos Marinho, Psicólogo Clínico e da Saúde, certificado pela EuroPsy; Membro Efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses; Diretor do espaço CresSendo, em Braga

 

"A vida, alguns de nós, não a temos senão vivido num persistente estado de quarentena. A trágica ironia do plano de contingência contra a atual ameaça pandémica é, para muitos/as, acrescentar ao rosto o inconveniente peso de uma dupla máscara – é caricaturizar as falsas representações que temos vindo a tecer de nós próprios/as. Para quem nega o encontro consigo mesmo/a e com a sua afirmação pessoal, para quem vive de fintá-la pelo evitamento, a vida terá sempre o perímetro restrito de uma quarentena."

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Nguye Thai Tuan

“There is a crack in everything / That's how the light gets in” [Leonard Cohen]

Conto-me no número dos/as muitos/as que terão lido, decerto também impressionados/as, as reflexões de um texto que veio a lume pouco tempo depois do COVID-19 ensanguentar as primeiras parangonas jornalísticas, e que tem sido (incertamente) atribuído ao psicólogo Leonardo Morelli [aqui deixo o link para vossa própria apreciação: https://tinyurl.com/v4kc9rn].. Não duvido que o teor das suas reflexões se mostre bastante discutível para uma sociedade prevalentemente antropocêntrica, racionalista, e senilizadora do simbólico.

Trata-se enfim de um relatório autopsial que expõe de forma resumida as manifestações de decadência da nossa hipermodernização – o individualismo pervertido para a exaltação umbiguista, o escurecimento do sentido de coletividade, o déficit de socialização e a restrição dos afetos (“Quando é que tomámos estes gestos e o seu significado como garantidos?”), a orientação mercadológica com que o monopólio do capitalismo nos transformou em homens/mulheres-máquina [ecoando as palavras de Tyler Durden, chegamos inclusivamente a trabalhar “em empregos que não gostamos, para comprar um monte de coisa que não precisamos”], o subaproveitamento do tempo (“cujo valor perdemos se não for mensurável em compensação ou em dinheiro”), o desprezo pela emergência ecológica, a dominância das políticas discriminatórias.

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Em 2018, preocupado com a saúde do amor, ofereci um convite à reflexão sobre as possíveis causas desta progressiva decadência, através de uma exposição de arte plástica intitulada «Pedra, Papel, Tesoura, Beija-me». No libretto que lhe serve de pauta, analisei os problemas acima listados como resultado de uma escalada de interações crescentemente vulnerabilizantes entre as capacidades humanas individuais e as expectativas ideológicas criadas pela pressão da ‘multidão psicológica’.

Sob a insidiosa ética individualista que agora domina a pós-modernidade, a multidão psicológica de que todos/as fazemos parte vai fabricando e vai vendendo modelos crescentemente irrealizáveis de segurança, de sucesso, e de felicidade, impelindo-nos a legitimar o nosso valor pessoal através da sua compra. A hipermodernização é todo um movimento prematuro de upgrade humanitário, um salto maior do aquele permitido pela perna, uma falsa promoção que nos deixa acima da nossa possibilidade de subsistência sã. Alienados/as do que genuinamente necessitamos, a personalidade dilui-se, a realidade é desvirtuada e, por consequência, adoecemos existencialmente.

Se a tendência civilizacional é já a de nos fundirmos aos papéis familiares, pessoais e sociais que assumimos (ou seja, de identificarmos o ‘quem-eu-sou’ com ‘o-que-eu-faço’), a hipermodernização veio comprometer ainda mais a dificuldade de transcender a máscara. Embora esta máscara (a que Jung chamou “Persona”) estimule a nossa individualidade, não a exprime na sua inteireza – representa apenas um compromisso entre o indivíduo e a sociedade acerca do que alguém parece ser: como um nome, um título, uma ocupação. De tão firmemente nos querermos mascarados/as, fez-se difícil distinguir a fissura entre o rosto e a máscara que o cobre; de tão absortos/as no up-keep desta ficção, reduzimo-nos à unidimensionalidade de hologramas. Compensatoriamente, a nossa cadência neurótica vem-se manifestando em comportamentos vegetativos, niilistas, no envolvimento compulsivo em atividades, e na solidão. É o nosso novo ópio.

“This is no dream! This is really happening!" [“Isto não é um sonho! Isto está realmente a acontecer!”]. A linha é de Rosemary Woodhouse, interpretada por Mia Farrow no filme «Rosemary's Baby» de Polanski (1968). A voz chegalhe dos confins de um estupor tóxico, malevolamente induzido por terceiros, numa realidade que lhe tentam fazer passar por onírica. A cena inquieta pelo esforço angustiado de uma mulher tentando a todo o custo preservar as suas faculdades mentais contra o constante assédio dos que a querem invalidar; nela perturba o fracasso da rebeldia disposta a romper com a impressão de uma realidade simulada – o fracasso da insurreição da mente lúcida contra uma Matrix enganosa, que desrealiza e dá texturas de posticidade à vida real.

A vida, alguns de nós, não a temos senão vivido num persistente estado de quarentena. A trágica ironia do plano de contingência contra a atual ameaça pandémica é, para muitos/as, acrescentar ao rosto o inconveniente peso de uma dupla máscara – é caricaturizar as falsas representações que temos vindo a tecer de nós próprios/as. Para quem nega o encontro consigo mesmo/a e com a sua afirmação pessoal, para quem vive de fintá-la pelo evitamento, a vida terá sempre o perímetro restrito de uma quarentena. Esperançosamente, porém, este pleonasmo poderá conceder-nos a oportunidade de desafivelar o ardil de cada máscara até à nudez do que verdadeiramente somos. E o que somos, pese quanta diferença nos fizer elogio à intervariabilidade, é iguais – da mesma humanidade, da mesma inequívoca humanidade.

Num texto de autoria desconhecida, já em circulação viral, lê-se outra passagem de interesse: “estão parados igualmente os carros topo de gama ou ferro velhos antigos simplesmente porque ninguém pode sair. Bastaram meia dúzia de dias para que o Universo estabelecesse a igualdade social que se dizia ser impossível de repor”. Talvez como acontece em Hamlet, na encenação que ele monta para instigar a consciência culposa do tio assassino, uma certa estrutura de ficção facilite a consciencialização da nossa verdade mais profunda; colocando-se no ilusório, talvez a híper-teatralização das nossas falsas representações permita libertar o que vamos negando à mente. A nossa partilhada humanidade converteu-se na inversão de um segredo de Polichinelo: o que deveria ser do conhecimento geral, fez-se secreto, desconfortável, impronunciável, proibido. A reflexão de Morelli reforça-o com acutilância: “Chega um vírus que nos faz perceber que, num instante, podemos ser nós os discriminados, os segregados, os bloqueados na fronteira, os portadores de doenças”.

Mais preocupante do que emancipar uma pessoa que não sabe ser reclusa das suas próprias máscaras, é emancipar quem sabe que o é e se recusa a mudá-lo.

[“Pergunto-me — Blanche fez uma pausa — se, não pensarmos em nada mais do que em nós durante dias a fio, pergunto-me o que acabaríamos por descobrir acerca de nós próprios… Joan parecia cética e ligeiramente divertida. — Será que descobriríamos algo que nos era desconhecido até então? Blanche disse lentamente: — Acho que sim… — Estremeceu repentinamente. — Não gostaria de experimentar”.]

Esta foi a oportunidade apresentada a Joan Scudamore, a heroína de «Ausente na Primavera», o primeiro livro que Agatha Christie publicou com o pseudónimo de Mary Westmacott, e do qual extraio a passagem acima. O título é puxado do Soneto XCI de Shakespeare [“Estive de ti ausente na Primavera, / Quando o orgulhoso Abril mais se ataviava / E em tudo um espírito juvenil punha / Que até o pesado Saturno ria e saltitava // Porém, nem canto de aves ou doce cheiro / De diferentes flores em odor e matiz / Me fizeram contar contos de Verão / Ou colher ramas da terra em que cresciam // Não me encantou a brancura de lírio algum / Nem celebrei o vermelhão intenso de uma rosa / Triviais prazeres, meras imagens de gozo / Desenhadas a partir de ti – padrão de todas elas // Contigo longe, ainda Inverno parecia / Entretinha-me eu encontrando em tudo a tua sombra”]. Retida por condicionalismos incontroláveis numa hospedagem iraquiana, a sós com os seus pensamentos, Joan vê-se levada a reinterpretar os eventos relacionais da sua vida, numa perspetiva nova e não isenta de desconforto. Acolhendo uma visão cada vez mais límpida (e mais tolerável) sobre os aspetos menos ajustados do seu funcionamento, percebe-se na iminência da mudança. Porém, assim que lhe é desbloqueado o caminho de regresso a casa, e a obrigatoriedade da reclusão se dissipa, Joan deixa que se lhe extravie a oportunidade para consolidá-la, preferindo esquecê-la.

Guardam-se estas imagens como quem ata um fio ao dedo: para que nunca se menorize a imprescindibilidade do real num mundo de máscaras sobre máscaras. Mas eventualmente esquecemos. Sem o previdente despertador da mãe-natureza, talvez este estado de coma lúcido se perpetuasse até à exaustão; agora, punidos/as pelo castigo da tragédia ou enaltecidos/as a um estado de graça, importa significar a crise, e rentabilizá-la para benefício de um crescimento mais genuíno, logo mais saudável.

Pelo intervalo das minhas apaixonadas consultas à distância, como dos momentos de estudo para atualização de conhecimento, o dia-a-dia vai avançando pelos cenários semi-desérticos de um vagar sem precedentes. Embora não me caia bem a inoperância, bastou meia dúzia de dias para querer a este isolamento como à incubadora de uma força mais viva. O salmista exclama, dirigindo-se a Deus: “Minh'alma tem sede de ti, numa seca e sedenta terra onde não há água" (Salmos, 63: 1, AV). Quase como uma resposta a essa exclamação, uma receita alquímica de 'solutio' começa com as seguintes palavras: “Se souberes irrigar esta terra árida com a água apropriada dilatarás os poros da terra”.

Tomá-lo-ei por estandarte. Talvez possamos agora divisar melhor os limites que vêm aprisionando as forças da ação e do nosso autoconhecimento; talvez possamos agora insurgir-nos interiormente contra o ilusório entretém de “pintar com desenhos coloridos e panoramas resplandecentes as paredes que nos mantêm presos” (a passagem lê-se em Göethe). Pergunta Jamil Chade, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” na Europa, e colunista da Radio Estadão: “E se usássemos esta quarentena para desenhar um modelo para ampliar a democracia e garantir que a ocupação dos locais públicos seja um direito universal? E se o isolamento fosse usado como incubadora de uma nova geração de líderes? E se o isolamento fosse aproveitado para ajudar nossos filhos sem escolas por semanas a desenhar a letra A? A de ágora. (…) Uma oportunidade única para a sociedade, fechada, olhar para si mesma e se examinar. Temos como construir uma geração fincada na responsabilidade social?”.

Está a abrandar o loop alucinante do carrossel que nos punha em pressas de roda tautológica. Vagarosamente ainda fremem as pálpebras de mal acordadas – mas a luz penetrou a fissura entre a máscara e o rosto. De repente, sem nada que o faça prever, há um súbito fluxo ao coração letárgico. A Matrix rachou, aberta em «O» pela bala perfurante de um assassino genoma de RNA simples; por entre as brechas vemos de chofre quão incontornavelmente frágil é a nossa espécie. Que ao modo ‘piloto automático’ se sobreponha então a vívida atenção da luz. Pela primeira vez em anos, o realismo da materialidade volta a impor-se ao domínio virtual do fantasioso. Que possamos todos/as aproveitar a oportunidade de rematerializar o corpo e o mundo, ao invés de insistirmos furiosamente na sua descodificação atrás de máscaras.

Um sol mais apetecível chama ao deserto deste isolamento forçado. É lá, diz a poesia de Carlos Maria Trindade, que se ouve “o fundo da alma / E se a areia está calma, o bater do coração”.