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Depois em Seguida

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Diário De Bordo De Um Lugar Quente

Por André Mariano 

A VERDADE SOBRE A TAILÂNDIA NUMA ALTURA DE RISCO

QUANDO PENSAMOS NO OUTRO, GOSTAMOS DE PENSAR EM NÓS PRIMEIRO.

Viajámos sem pensar numa altura que a Direção-Geral da Saúde não recomenda restrições de viagens, as companhias aéreas reduzem o número de voos, existem fronteiras encerradas e as agências de viagens aconselham o cancelamento de programas turísticos.

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Depois de muitos dias de preparação saímos de Portugal rumo à Tailândia, que segundo o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças  é um dos países onde foram reportados 82 casos de coronavírus laboratorialmente confirmados e até à data houve apenas uma morte

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É verdade! Mesmo num clima social não muito favorável, chegámos a Koh Samui para uma missão internacional, numa das ilhas a sul do Golfo da Tailândia. A exploração do corpo e as massagens características remetem-nos para o começo da escravatura e comercialização intercontinental de seres humanos. Mas nem tudo é mau, dizem eles.

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Cientes do risco, mas com uma vontade maior de mostrarmos que temos o coração no sítio certo, cumprimos o plano da viagem e fomos ao encontro do Elephant Sanctuary para contar a sua história, com o intuito de  ajudar a atrair investimento e doações. É o primeiro e único local da ilha que promove o turismo ético ( estes animais são mágicos e extraordinários). Precisa da nossa atenção, acreditamos. Obrigado Lek Chailert, és a verdadeira mãe.

Durante a viagem de 12 dias (Singapura, Koh Samui, Banguecoque e Dubai), gravamos dois documentários, confessamos-te que usámos máscara até mesmo no hotel. Respeitámos todas as medidas de prevenção que recebíamos pela Organização Mundial de Saúde (WHO), DGS, e das notificações da Rádio Televisão Portuguesa e Observador.

Ainda estávamos no começo dos acontecimentos, mal informados, mas com uma percepção mais real do mundo. Em Portugal fomos apontados como os loucos, os inconsequentes, mas a cima de tudo aqueles que ora relativizaram ora se preocupavam de mais por utilizarmos máscaras. Mas uma coisa é certa: estávamos em pânico, porque sabíamos que tínhamos tantas cartas de amor por escrever. E muitas mais missões para realizar.

A meio da nossa viagem, resolvemos em consenso deixar de partilhar o que vivíamos, a mensagem chegava desvirtuada. E o sabor do sol encoberto pela poluição dava a sensação que estávamos num destino turístico idílico. Resolvemos parar! A nossa realidade foi outra. Conhecemos pessoas e rostos, profissões, histórias e alguns sorrisos e lágrimas. Andámos lado a lado com o vírus, diferentes tipos de sarna, e com a falta de higiene e saneamento básico. Transpirámos odores que não eram os nossos, fizemos largos minutos de apneia e mergulhámos uma vez, onde o mar alto conseguia refletir as nuvens com uma exatidão concreta. Mas fomos felizes! Mesmo sabendo que não podíamos abraçar todos os animais de rua que vinham até ao nosso aconchego de olhares e palavras, enquanto pediam ajuda.

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Ainda antes de chegarmos a Banguecoque, conhecemos outros missionários e grupos involuntários de amigos que se aproximaram depois de fazerem longas distâncias de comboio, camioneta e barco. Visitámos mercados tão mágicos, como inacreditáveis na sua forma de ser: um ecossistema fechado, cujas preocupações passam por satisfazer o cliente e conseguir uma conversão positiva ao mesmo tempo que se resolvem abrigar do calor junto das estradas principais. Ao fim e ao cabo, até nas ilhas de terceiro mundo as regras de visual merchandising são universais e tem todas o mesmo objetivo: a venda cruzada de produtos e serviços. Sempre que entrávamos nestes abrigos comuns, vinha-nos à memória o tal mercado que foi encerrado a 1 de janeiro de 2020, o Wuhan’s Huanan Seafood Wholesale Market, e a magia de estarmos numa ilha onde o amanhecer na praia servia para ver chegar à costa um conjunto de latas e plásticos diversos... faziam com que qualquer sonho, se tornasse um pesadelo ao estilo de “Black Mirror”.

Por esta altura começámos a valorizar o ar puro e o estar longe de pessoas, mas fundamentalmente começámos a reconhecer comportamentos protagonizados pelo preconceito e o estigma.