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Depois em Seguida

CULTURA | MUNDO | ENTREVISTAS | OPINIÃO

16 de Março, 2020

Fábio Barreira Gouveia

Por Amaro Figueiredo 

     Não resiste a quem sabe lidar com ele, em qualquer altura. Sonha ir ao Japão, Irlanda, Islândia, Egito e ao Brasil. Quando era mais novo sonhava muito com os cangurus da Austrália.

     O Fábio gere a página de facebook O Sábio da Lua Cheia, que conta com mais de 20.000 gostos e a página A Bomba Gramatical, dedicada ao humor.

     

"Escrevo-te sem saber como terminar.(...) Escrevo-te em tinta, em papel, em carvão, em sangue, em pedra, em coração. Escrevo-te em sons de noite vazia, em contornos de lua de inverno, em notas de músicas esquecidas, em risos impossíveis de ter, em miados rasgados, vadios, em abraços frios, em sonhos que nunca vou ter. (...) Escrevo-te. Palavras que a maresia traz, que me afogam, que me levam. Palavras que nunca ouvi, palavras que jamais plantei, palavras que agora colho, com a nostalgia que nunca te dei. Escrevo-te. Sem saber quem és, sem saber onde estás. Sem saber o amanhã, sem lidar com o hoje, sem recordar o ontem. Sem saber se mereço a atenção, sem saber se consigo passar a mensagem."

in Escrevo-te

 

fábio 3.jpg©FBG

DES: Que papel tem a escrita na tua vida?

Fábio Barreira Gouveia: A capacidade da (boa) escrita é uma arte. A minha querida Florbela (Espanca) é a prova intemporal que, quando sabemos escrever de forma a deixar fluir o nosso epicentro de sentimentos, verdades e emoções, criamos algo incrivelmente belo. Vejo a escrita dessa forma desde que consegui, há muitos anos, escrever um poema que foi interpretado da forma mais correta possível por completos desconhecidos. Consegue ser uma ponte entre o desabafo e a reflexão, quase como uma meditação alternativa: o coração abranda, a alma sossega, e a mente descontrai. Nunca tinha pensado nela desta forma; talvez deva “meditar” com mais frequência!  

 

DES: Qual é a maior liberdade de um homem?

Fábio Barreira Gouveia: Poder sorrir e adormecer, sem se preocupar com o amanhã.

 

DES: O que é o amor?

Fábio Barreira Gouveia: Poderia dizer uma série de frases pseudo-literárias, que na realidade não passariam de fogo de vista. Posto isto, e de forma simples: o amor é a prova que há algo sem explicação que um dia talvez aconteça, e um dia talvez deixe de acontecer; o que fazemos enquanto ele acontece, só depende de nós.

 

DES: Infância ou adolescência? Tens alguma confissão ou memória dessa fase que nos possas contar que seja memorável?

Fábio Barreira Gouveia: Infância, sem dúvida. Comparativamente à minha adolescência, foi uma fase de ingenuidade, em que era feliz sem saber, e por isso hoje a recordo com tanto carinho. Recordo-me dos natais, ainda eu miúdo com 6/7/8 anos de idade, sem telefone em casa, me juntava aos meus pais para escrever os postais de natal para enviar aos meus avós maternos, que viviam em Vinhais (Bragança) e à minha avó materna que vivia no Chiado, em Lisboa. Escrevíamos na mesa da sala, enquanto dava na televisão o Vitinho, e eu me recusava a ir dormir sem escrevermos tudo bonito para que as minhas avós soubessem que gostávamos muito delas. Tenho ainda alguns deles guardados, que tive a oportunidade de reaver após o falecimento de ambas as minhas avós, e releio-os hoje com muita saudade e nostalgia.

 

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©FBG

 

DES: A que é que não resistes?

Fábio Barreira Gouveia: Não resisto a quem sabe lidar comigo, em qualquer altura. É difícil!

 

DES: Quais são os privilégios e as dificuldades de gerir a página “A Bomba Gramatical”?

Fábio Barreira Gouveia: São quase apenas privilégios. Tenho o privilégio, por exemplo, de conseguir construir um cenário em que pequenos lapsos são transformados em verdadeiras “bombas” gramaticais, e com isso fazer rir quem segue a página. Creio que a maior dificuldade é resolver um momento de tensão com algum interlocutor que não compreende o sentido de humor de determinada publicação, e com isso sente-se no direito de ser ofensivo e rude. Creio que nesse aspecto, o facto de trabalhar com público há muitos anos me ajuda bastante a conseguir gerir o conflito de uma forma mais suave.

 

DES: Qual é o erro indispensável?

Fábio Barreira Gouveia: Oferecer Ferrero Rocher pelo Natal a algum tio ou tia.

 

DES: O que gostavas de fazer que ainda não tiveste oportunidade de concretizar?

Fábio Barreira Gouveia: Viajar muito. Gostava de ir ao Japão, Irlanda, Islândia, Egito e Brasil. Quando era mais novo sonhava muito com os cangurus e a Austrália, mas aquelas aranhas todas que para lá andam não são NADA convidativas!

 

DES: Há alguma coisa de que te arrependas muito?

Fábio Barreira Gouveia: Agarrar-me incansavelmente a um amor obsoleto e unilateral, e achar que por eu querer, teria. Por outro lado... Aprendi com isso que, o mundo seria muito mais pobre se o Amor fosse propriedade, em que bastaria querer para ter. Portanto, no fundo, creio que nem disso me arrependo verdadeiramente.

 

fábio.jpg

©FBG

 

DES: Qual é o teu livro preferido? Porquê?

Fábio Barreira Gouveia: Não um livro em concreto, mas de um modo geral tudo o que foi escrito pela Florbela Espanca. A sua capacidade de colocar a alma em papel, de colocar a amargura num pedestal, e fazer-nos querer sofrer com ela apenas para que ela não sofra tanto e tão sozinha... Acho que me faço entender.

 

DES: Vamos fazer um jogo. Eu digo uma palavra e tu dizes o que vier à memória. Luxo...

Fábio Barreira Gouveia: .... algo desnecessário, como relógios que custam mais que um carro.

DES: Longe...

Fábio Barreira Gouveia:...o passado.

DES: destino...

Fábio Barreira Gouveia:...nunca saberemos se existe ou não.

DES: snob...

Fábio Barreira Gouveia:...falta de empatia, ou fachada em defesa da vulnerabilidade.

DES: sonho...

Fábio Barreira Gouveia: ...muito mais quando estou acordado do que a dormir.

DES: Tempo...

Fábio Barreira Gouveia: ...a maior preocupação de todos nós.

DES: Obrigado.