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Des i - depois, em seguida

CULTURA | MUNDO | ENTREVISTAS | OPINIÃO

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Lucas Lopes

O Desenhonário do Lucas foi uma feliz descoberta. Os minúsculos e sensíveis bonecos, com bochechas rosadas e pintas vermelhas, feitos de porcelana fria, ervas e retalhos de tecido, fizeram-me acreditar no verso da canção de António Gedeão, "o sonho comanda a vida".  


Lucas Lopes é mineiro formado em Artes Visuais. 

Trabalha como artista educador, orientando atelies, oficinas de Artes Plásticas e Fotografia no programa Fábricas de Cultura.  Em paralelo, desenvolve trabalhos de criação e direcção de arte: com o Colectivo Grão, dirigido por Cintia Alves, fez a direcção de arte do espectáculo FEIO voltado para o  público surdo e cego, SESC Vila Mariana (2016).

Foi  director de arte do projecto "Os minutos que se vão com o tempo" da Trupe Sinhá Zózima (2015/2016) contemplado pela 24ª edição da lei municipal de Fomento ao Teatro,  São Paulo. É um dos artistas do projecto Ninho Cantante que está em itinerância pelas unidades do Sesc no estado de São Paulo desde o início de 2017.

Em 2017 ilustrou as paredes da Biblioteca do Sesc de Ribeirão Preto, considerada uma das bibliotecas infantis mais incríveis do mundo.

Criou a arte do encarte da peça "Crianceiras" em temporada no Sesc Pompéia no primeiro semestre de 2018;  realizou também o projecto “O Desenho das coisas” com intervenções de desenho livre brincando com as possíveis relações entre imagem e palavra.

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   ©Arquivo Pessoal

 

Emprestado ao Nada' VS Morada? 

Emprestado ao Nada é o nome de um poema da amiga e escritora Andrea Lopes que em parceria transformamos em um pequeno livreto. E também é uma maneira nossa de lembrar que o descanso é importante, e de que o vazio é, também, alimento.

 

Sementes VS Amor? 

Faz 7 anos que uma amiga pela manhã, de nome Linda Luz, me disse que não havia dormido, ficou buscando pela noite qual era o sentido da vida e havia chegado a conclusão de que era o Amor. Talvez seja ele esse grande mistério, que faz brotar a semente, o coração bater, as certezas se derreterem...

 

Abraços VS Mar? 

Conheci o mar aos 18 anos, quando me aproximei percebi que ele respirava e dançava em ondas, estava vivo, foi um espanto.Percebi que a imensidão está (e sempre esteve) acordada, pronta para me ouvir e me ensinar, silenciosamente.

 

Segredos VS Saudade? 

Acho que dentro de mim os segredos são como chaves em que abro e fecho portas. Algumas portas, mesmo quando abertas, parecem estar fechadas, entro, e dali me acontece o incomunicável.

 

Desenhos VS Aquarelas? 

Tudo é desenho, o nosso trajeto pelo mundo, os encontros. Bia Machado, minha professora, me apresentou uma metáfora que gosto muito da “trama e a urdidura”; uma mesma urdidura em que cada ser vai criando a sua trama, o desenho do seu tapete, cada peça tecida de forma única.

 

Janelas VS Portas? 

Eu gosto da generosidade das janelas.

 

Sonhos VS Voar? 

Quando eu era criança sempre ficava me questionando qual superpoder eu gostaria de ter: ficar invisível ou voar, até que numa tarde de domingo a cidade estava quieta e o céu ficou cinza, ia chover e começou a ventar muito, fui para o meio da rua e abri os braços, senti o vento muito forte e imaginei que aquilo deveria ser a sensação de voar, então decidi que esse seria o meu superpoder.  

 

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   ©Arquivo Pessoal

 

Chuva VS Sol?

O Sol, maestro do tempo. Desse tempo que também pulsa em nós, para além dos relógios, calendários. Que pinta o verde nas folhas e a aurora no céu, é curioso pensar que talvez existam cores que ele pode criar e que ainda não conheci.

 

Silêncio VS Música? 

O silêncio, pode ser uma ferramenta divina ou uma arma violenta. Espero que um dia possamos aprender a usá-lo corretamente.

 

Folhas VS Cordão? 

Se o sol está forte e deitamos embaixo de uma árvore, podemos contemplar a renda que se forma com as folhas e o céu, pode ser que nasça nesse momento uma oração.

 

Histórias Inventadas VS Histórias Vividas?

É um desafio guardar as histórias, não esquecer, lembrar de si. Esse é um trabalho que tem me interessado muito.

 

Raízes VS Liberdade? 

Esse ano fui para o nordeste do Brasil em uma região de dunas no Ceará, quando me vi cercado por areia comecei a correr disparado por elas, naquele momento não havia destino ou causa, acho que isso é liberdade, e acho que sempre que minha única razão para fazer algo é apenas uma necessidade interna, e faço, sei que ali eu sou livre.  

 

Coração VS Palavras? 

Uma noite sonhei que havia escrito um poema e liguei para que a Matilde Campilho recitasse o poema que fiz para que eu pudesse ouvir. Lembro que o poema falava algo sobre a aprendizagem, que para conhecer não devemos circundar a periferia das coisas, mas ir até o centro, subir no topo, do coração, e de lá ter a visão do todo.

 

Escadas VS Lágrimas? 

As escadas sempre estiveram presentes no meu imaginário poético, me encanta essa ideia do acesso que elas promovem, os caminhos verticais, suas simbologias.

 

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  ©Arquivo Pessoal

 

Infância VS Hoje? 

Muitas pessoas que conhecem o meu trabalho já me disseram em algum momento que deveria ilustrar mais livros para crianças. Lembro também de uma feira que participei, em que uma artista que conhecia apenas o meu trabalho ficou espantada pois não imaginava que era um homem o criador das ilustrações. Acho que ela considerava o meu trabalho delicado demais para ser feito por um homem. Então acredito que a infância e o feminino (presente em todos nós) foram potências afastadas e até mesmo negadas dessa ideia que temos do homem contemporâneo. Hoje sei que existe uma certa transgressão, embora muito sútil, em trazer essa poética sendo homem.

 

'Caminhos de Dentro' VS 'O Desenho das Coisas'?

Talvez os caminhos de dentro se unifiquem com o passar do tempo em um só: a viagem para terra natal.

 

Cores VS Solidão? 

Tenho um certo apreço pelos momentos solitários, neles acontecem muitos outros encontros, nesse sentido não sei se a solidão realmente existe para mim.

 

Medos VS Poesia? 

A poesia é um jeito.

 

Labirinto VS Gratidão? 

Nossa comunicação é um grande labirinto. Uma vez fui a um parque, em que tinha um labirinto, fiquei muito tempo lá sem conseguir encontrar a saída, os funcionários vieram me ajudar, percebi que se meu olhar fosse mais amplo para o caminho, talvez eu pudesse ter encontrado a saída sozinho. Penso que isso às vezes acontece com nossa comunicação, quando escutamos o outro preso em detalhes ou sem uma atenção, que possa ultrapassar as palavras, também ficamos perdidos e sem saídas para acessá-lo.

 

Arte VS Artista? 

Acredito na Arte como uma possibilidade de atravessar esses labirintos que criamos entre nós e os outros, entre nós e o mundo.

 

Obrigado, Lucas. 

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