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Depois em Seguida

CULTURA | MUNDO | ENTREVISTAS | OPINIÃO

25 de Março, 2020

Raquel Marinho

Apesar de portuense de gema, é em Braga que vive desde cedo e alicerça grande parte do seu trabalho.

Foi a experiência da maternidade que mais vincadamente a relançou na importância do brincar como ato de amor e de fortalecimento de vínculos afetivas, das atividades e projeto que hoje desenvolve.

Enquanto estudante universitária começou progressivamente a edificar a sua carreira como animadora freelancer, desenvolvendo atividades lúdico-pedagógicas como principal meio de fomentar o bem-estar físico e psíquico dos mais novos.

Para a Raquel Marinho o seu trabalho reflete aquilo em que acredita e que sente que é urgente mudar.

 

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©RM

DES: Estás a lançar a tua marca pessoal. ´Raquel Marinho´ é dedicada à comunidade e à cultura. Como surgiu a ideia?

Raquel Marinho: Sim, a Raquel Marinho já anda por aí e sou eu. Por inteiro (sorri). Desde que comecei a trabalhar, há sensivelmente quinze anos, que o meu trabalho é voltado para a comunidade, sim. Em grande foco as crianças e as famílias. As dinamicas que crio surgem, essencialmente, na tentativa de promover tempos de qualidade que as unam, tendo o “brincar” como ferramenta para o fortalecimento de laços e vinculos afetivos e poder, assim, criar memórias. De há uns anos para cá, este tipo de dinamicas tem chamado a atenção de espaços culturais e de arte. E por que não leva-las até lá e tornar esses locais apeteciveis ao lazer e aos encontros familiares? Conseguiu-se, por exemplo, levar ateliers de cozinha para pais e filhos a bibliotecas, galerias de arte e museus. A pintura, a escrita criativa, a jardinagem, são um exemplo, tambem, da confluencia entre o lúdico, o artístico e o cultural. Estes mediadores expressivos têm muitas vezes a missão de desconstruir temáticas de crucial importancia, tornando-as de acessivel compreensão para as crianças mais pequenas. Falamos das emoções, do bullying, dos medos, das birras de forma divertida e partilhada entre pais e crianças.  A ideia do lançamento da marca Raquel Marinho surge de uma necessidade própria, claro está. Da necessidade de um reconhecimento interno e pessoal pelo trabalho que realizo desde que me conheço. Soube, desde o inicio dos meus trabalhos que um dia lançaria a minha imagem. Só hoje senti a maturidade suficiente para o fazer. E ela aqui está. Um misto de aprendizados, seguranças, inseguranças, medos, conquistas, vitórias. Apesar de ser um colmatar de experiencias profissionais, é sobretudo um inicio, um começo. De coisas boas. E acredito que o melhor ainda está por vir.

 

DES: Sempre te imaginaste neste papel de mediadora cultural?

Raquel Marinho: Eu sou aquilo que faço. Hoje não me conseguiria imaginar a desempenhar nenhum outro papel que não este a que me dedico. Cada projeto que faço é construido e desempenhado com uma paixão e um amor imensos e sei que as pessoas sentem isso. Desta partilha entre mim e o público nasce a certeza cada vez maior que estou a fazer aquilo que gosto. Uma missão de vida. Lembro-me de ter sempre uma enorme dificuldade em categorizar todos os serviços que elaborava. Cada designação que encontrava para a minha profissão estava incompleta pois havia sempre algo mais que ficava de fora desse conceito. Conseguir uma designação que acolhesse todas as frentes do meu trabalho, foi tarefa complicada. Confesso que a designação de Mediadora Cultural é recente, mas foi “talhada” para mim.

 

DES: Se pudesses escolher apenas uma palavra para definir o projeto Raquel Marinho, qual seria?

Raquel Marinho: Essa é uma pergunta para cinquenta mil euros (sorri). Enquanto vos digo isto, ocorrem-me mil e uma. “Família”. Penso que é a palavra mais abrangente que encontro para me definir e consequentemente ao meu projeto também. Família é amor, é segurança, é equilibrio, é bem estar. É a primeira “entidade” responsável por nos permitir um crescimento saudável a todos os níveis. Se pensarmos que os alicerces das minhas atividades, do meu projeto, assentam em todos esses principios e que têm como principais objetivos a promoção do tempo de qualidade entre pais e filhos, o brincar como gesto de amor, o bem estar e o crescimento fisico, psiquico e sócio-emocional saudável, então não encontro outra que melhor o defina.    

 

DES: Consegues ver-te sem o público infanto-juvenil?

Raquel Marinho: Não. Não saberia por onde me reinventar. Seria o mesmo que começar uma nova obra de mim mesma mas iniciando-se pelo telhado. E o mesmo se passaria com o proposito do projeto. Prefiro pensar que essa questão não se coloca!

 

DES: É cada vez mais importante promover a qualidade emocional?

Raquel Marinho: Não é importante, é urgente. O meu trabalho reflete aquilo que acredito e incide no que sinto que é urgente mudar. Se olharmos à nossa volta, está tudo invertido. Insistimos em  adultizar as crianças e infantilizar os mais velhos.  Incomoda-me profundamente que uma criança tenha, cada vez menos tempo para brincar em prol de um sem número de atividades extracurriculares, que muitas vezes nem são do seu agrado. Que exijamos dela a mesma (ou até mais) carga horária do que um adulto no seu emprego. Os pais e educadores vão tendo cada vez mais consciência disso, mas muitas vezes, a dificuldade está em saber como gerir todas as exigências impostas pela sociedade. E sentem-se perdidos e cada vez mais pressionados. O brincar é uma necessidade básica, essencial ao equilibrio de cada pessoa. Nenhuma criança desenvolverá todo o seu potencial se a brincadeira for suprimida. Não se trata apenas de um divertimento. É o seu meio de expressão e comunicação. Brincar é crucial para aprender a identificar e lidar com as suas emoções. É a sua forma de comunicação, de compreensão de papeis, de encarar os seus medos, as suas angustias, os conflitos iternos. Através do “faz-de-conta”, a criança vai crescendo e tomando consciencia de si e do que a rodeia. Os benefícios do brincar são inesgotáveis. Sem brincar não há um crescimento saudável e tornar-se-ão adultos com parcos repertórios de competencias socio-emocionais. Hoje é urgente brincar. E não são só as crianças. Somos todos nós. A criança interior, agradece.  O meu papel é o de promotora de momentos impulsionadores a um crescimento saudável em todas as frentes do individuo, físico, emocional e social. Não mudo o mundo, é certo, mas vou fazendo a minha parte.

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DES: Quais foram os melhores momentos desde que começaste o projeto?

Raquel Marinho: É difícil destacar momentos concretos. Cada atividade é algo novo. Por mais habituada ou segura que estejas, nunca sabes como irá correr. Terá sempre de ser uma invenção ou reinvenção de ti mesma a cada instante. É um crescimento pessoal e coletivo constante, atividade atrás de atividade. Quando percebes que o público captou a mensagem e a tua essencia, esse enriquecimento e crescimento é mútuo. É de uma gratificação imensurável.  E sabes que estás no caminho certo, no teu caminho. E felizmente ao longo do meu trabalho e em particular, recentemente com o nascimento da minha marca pessoal, essa gratificação tem sido uma constante.

 

DES: Como se começa a vida ao contrário?

Raquel Marinho: Essa é uma expressão que utilizo muito. Somos socialmente pressionados a programar a vida de acordo com uma determinada cronologia: estudas para teres um emprego, para casares e teres filhos. Progredires numa carreira para uma boa reforma… Eu inverti essa tendência, apesar de não ter sido propositado. Comecei pelo fim. Não pela reforma (riso) mas pelos filhos. Depois casei. Comecei a trabalhar de forma autodidata com o publico infantil e juvenil de acordo com as ideias e aptidões que a experiencia da maternidade me foi despertando. Em função disso, enveredei pelo ensino, sem sucesso, e posteriormente pela sociologia. Mas felizmente, no meu caso, houve suporte da familia para que assim acontecesse. Claro que me foi penoso abdicar dos momentos auge da juventude, de ver os amigos num registo totalmente diferente do meu, ou ir às aulas depois de noites sem ir à cama. Mas o mais importante é que hoje olho para trás e penso que consegui tirar o máximo partido de todos esses momentos. E o melhor de tudo, é sentir-me abençoada ao olhar as filhas, crescidas, que tenho hoje.

 

DES: Também és mãe. Há tempo livre? Como ocupas os teus tempos livres?

Raquel Marinho: Sim, sou. Aliás, do que me lembro, acho que sempre fui, sobretudo, mãe. Tempo livre? Tem de haver. Para o nosso equilíbrio e consequentemente para o daqueles que de ti dependem. Para mim, no início a grande dificuldade era precisamente saber encara-lo como tempo para nós e como o preencher para me sentir preenchida também. Há medida que os filhos vão crescendo vamos nos sentindo “menos precisas” nesse papel – se alguma vez isso se pode dizer. E podemos pensar mais naquilo que nos faz sentir vivas. O que só é possível com uma grande introspeção e autoconhecimento. O que não é fácil. Penso que só recentemente me conheci verdadeiramente. E com esse processo compreendo melhor a importância e a necessidade de nos afirmamos para nós mesmas como Mulheres. Antes de qualquer outra função acumulada. Talvez esse seja o ponto fulcral para sermos felizes. Conseguido esse bem-estar emocional, somos bem sucedidas nas nossas outras facetas: mães, esposas, profissionais. Pelo menos, eu acredito que sim. Como ocupo os meus tempos livres? Bem, tenho uma paixão antiga, forte, que não sei ainda o que fazer com ela, a aviação. Agora, entre a música, a dança, as caminhadas, as viagens vou-me (re)encontrando.

 

DES: Como chegamos até ti, ao teu projeto?

Raquel Marinho: Hoje em dia tudo é levado a todo o lado através da redes sociais e da internet. E com este projeto procede-se da mesma forma. Para além do facebook e instagram, está ainda em construção o site e o blogue, onde poderã seguir os eventos que vão sendo lançados nos diversos espaços e pontos do país. Contudo, acho que a forma mais eficaz de alargar o nosso trabalho é de forma personalizada, o passar a palavra. É mais gratificante saber que quem o faz esteve nas nossas atividade e gostou.